O DESERTO QUE BROTA NO PEITO. Clamamos... Marcelo Caetano Monteiro

O DESERTO QUE BROTA NO PEITO.
Clamamos por amor nas longas estradas.
Entre sombras, esperas e jornadas.
Erguemos as mãos ao céu desmedido.
Perguntando por que o coração segue ferido.
Mas o amor que suplicamos em oração.
Talvez tenha partido de nossa própria mão.
Talvez tenha morrido na palavra negada.
Ou na ternura esquecida e nunca semeada.
Queremos jardins floridos ao amanhecer.
Sem lançar uma semente sequer.
Ansiamos pelo abrigo, pelo calor e pela luz.
Mas recusamos o peso da própria cruz.
Pedimos afeto às portas do destino.
Como quem exige água sem cavar o caminho.
Esperamos colheitas em vasta amplidão.
Onde jamais trabalhou nossa dedicação.
O coração humano é campo profundo.
Que fecunda ou devasta seu próprio mundo.
Quem distribui bondade em cada estação.
Constrói silenciosamente a própria habitação.
Nenhum rio alcança o mar de repente.
Nenhuma estrela resplandece ausente.
Toda grandeza nasce em discreta ação.
Todo amor regressa ao seu ponto de emissão.
Se a alma se fecha em rigor e frieza.
Receberá de volta a mesma aspereza.
Mas se espalha perfume pelas veredas da dor.
Encontrará flores onde antes havia dissabor.
Não é o universo que nos esquece.
Nem a providência que desfalece.
Muitas vezes a carência que nos consome.
É o eco do bem que jamais tomou nome.
Assim segue o homem pela vastidão.
Procurando fora a própria redenção.
Sem perceber que a fonte procurada.
Nasce da água que foi compartilhada.
Reflexão
Muitas vezes lamentamos a ausência do amor, sem notar que ele obedece à mesma lei das sementes. Ninguém colhe aquilo que nunca plantou. O afeto que oferecemos, a compreensão que distribuímos e a misericórdia que exercitamos tornam-se forças que retornam, cedo ou tarde, ao encontro de nossa própria existência. O amor que nos falta, não raro, é justamente aquele que ainda aguardava nascer através de nós.