O Bobo Presumido Andava o mundo cheio... Celso Augusto Soares
O Bobo Presumido
Andava o mundo cheio de homens doutos, vestidos com as pesadas vestes da certeza. Caminhavam pelas praças da vida com o queixo erguido, ditando regras ao vento, medindo o infinito com réguas de bolso e explicando os mistérios do universo como se fossem os donos do amanhã. Entre eles, destacava-se uma figura curiosa: o bobo presumido.
O bobo simples é uma criatura de se louvar. Ele erra porque não sabe, tropeça porque a estrada é torta, mas estende a mão pedindo ajuda e ri de si mesmo quando descobre a verdade. Há pureza na sua ignorância. Mas o bobo presumido, ah, esse é de outra espécie. Ele carrega a ignorância como se fosse uma coroa de ouro. Tranca as janelas da alma por fora, convicto de que o sol só brilha porque ele permite.
Certa vez, diante de um horizonte imenso, o bobo presumido zombou daqueles que paravam para admirar as coisas pequenas. Para ele, o milagre da semente que brota na terra seca era poesia de tolos; a fé humilde de quem dobra os joelhos ao anoitecer era fraqueza. Ele exigia o grandioso, o pomposo, a lógica que coubesse no seu pequeno tribunal intelectual. Não percebia que, ao tentar engolir o oceano com uma colher de chá, apenas se afogava na própria vaidade.
Enquanto ele discursava para o espelho, o tempo corria silencioso, como sempre faz. E a vida, em sua divina simplicidade, continuava a se revelar não nos palácios da soberba, mas nos corações que sabem se fazer pequenos. Pois a sabedoria não reside em acumular respostas para tudo, mas em manter a humildade de quem sabe que o Criador se esconde no sussurro, e não no trovão.
Ao final da jornada, os castelos de vento do presumido desmoronam com o sopro dos anos. O que resta são apenas as marcas reais que deixamos no mundo. A vida, afinal, é como um grande deserto, onde todos deixaremos nossas pegadas na linha do tempo — e cabe a cada um decidir se caminhará com a leveza dos humildes ou com o peso inútil da falsa sabedoria.
Celso Augusto Soares
