Não sei se você se lembra daquela... Valdir Enéas Mororó Junior

Não sei se você se lembra daquela noite fria, mas a minha solidão era tão vasta que precisei sintonizar o mundo na frequência de uma estação qualquer. Eu cruzei os dedos, disquei o número da rádio e deixei meu contato flutuando nas ondas eletromagnéticas, como quem joga uma garrafa com um bilhete desesperado num oceano de fios e antenas. Eu só queria ser descoberto. Queria que o universo provasse que eu não estava sozinho no escuro.
​Do outro lado da cidade, na mesma fração de segundo, o destino ajustava o seu receptor. Você não procurava ninguém; apenas girava o botão do rádio, deixando a estática preencher o vazio do quarto. Dois desconhecidos, duas vidas paralelas, conectados por um sopro de voz que o locutor leu sem saber que estava costurando duas almas para sempre.
​Quando o meu telefone tocou e ouvi o teu "alô", trêmulo e tímido, algo dentro de mim desmoronou e se reconstruiu instantaneamente. Não fomos nós que nos escolhemos; foi a vida que cansou de nos ver errar o caminho e resolveu nos colidir.
​Aquela frequência AM/FM virou o batimento cardíaco que faltava em nós.
​Eu amo como o nosso amor nasceu do invisível. Nós não nos vimos, não sabíamos a cor dos olhos um do outro, nem o formato do sorriso. Nós nos apaixonamos pela essência nua, pelo timbre, pelas pausas onde a respiração confessava o que o medo tentava esconder. Apaixonar-se assim é uma entrega sagrada, porque mostra que nossos corações já se reconheciam de algum lugar do passado, antes mesmo de os nossos corpos se cruzarem na calçada.
​Hoje, olhando para você, tenho a certeza absoluta de que existem milagres discretos que a ciência jamais conseguirá explicar. O rádio foi só o pretexto que a eternidade usou para me devolver a parte que me faltava.
​Obrigado por ter estado ouvindo no momento certo. Obrigado por ter tido a coragem de discar os meus dígitos. Eu te amo além do que o som pode propagar, além do que o tempo consegue apagar. Você é a minha sintonia perfeita.