MIGALHAS DA GRANDE MESA. CAPÍTULO IX... Marcelo Caetano Monteiro
MIGALHAS DA GRANDE MESA.
CAPÍTULO IX
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
VIRTUDES COM MODÉSTIA.
“Mais vale pouca virtude com modéstia do que muita com orgulho.”
Uma tragédia silenciosa que atravessa os séculos humanos. Ela não nasce somente da violência, das guerras ou da miséria material. Surge também no interior das consciências que aprenderam a aparentar bondade sem verdade moral. O capítulo “Sede Perfeitos”, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no item “A Virtude”, penetra precisamente nessa enfermidade da alma. Não se trata apenas de ensinar boas ações. Trata-se de revelar a diferença abissal entre parecer virtuoso e ser verdadeiramente virtuoso.
A Doutrina Espírita nunca glorificou máscaras religiosas. Desde O Livro dos Espíritos, quando os Espíritos Superiores afirmam que o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza possível, percebe-se que a virtude não é espetáculo social. Ela é estado íntimo. É conquista lenta. É lapidação dolorosa da consciência.
O texto de François Nicolas Madeleine, em Paris, no ano de 1863, apresenta uma observação profundamente psicológica e espiritual. O orgulho consegue infiltrar-se até mesmo dentro das obras aparentemente nobres. Um homem pode alimentar famintos e ainda assim desejar secretamente a veneração pública. Pode discursar sobre humildade enquanto cultiva silenciosamente a necessidade de superioridade moral. Pode servir aos pobres enquanto interiormente exige admiração. Eis o ponto central do ensino espírita. O mal nem sempre aparece sob formas monstruosas. Muitas vezes ele veste roupas de virtude.
Essa análise encontra profunda consonância com as reflexões de Léon Denis em O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Denis explica que o orgulho é uma das últimas sombras a desaparecer do Espírito. O homem vence certos vícios grosseiros, mas continua desejando aplausos, domínio psicológico e exaltação pessoal. A criatura abandona paixões materiais e passa a alimentar paixões morais mais sutis. Nesse estado, a alma não caiu totalmente na luz. Apenas refinou suas ilusões.
A verdadeira virtude quase sempre é discreta. Ela foge do palco. Não necessita anunciar-se. O próprio Cristo ensinou isso quando advertiu sobre aqueles que oravam nas praças para serem vistos pelos homens. O Evangelho não condena a prática do bem. Condena a vaidade que deseja transformar o bem em instrumento de autoexaltação.
No pensamento espírita, essa questão possui profundidade ainda maior porque o orgulho não produz apenas consequências sociais. Ele interfere diretamente na evolução do perispírito e da consciência. Em A Gênese, compreende-se que o Espírito modela continuamente suas estruturas sutis através do pensamento e das disposições morais. Assim, o indivíduo que pratica caridade apenas para alimentar reconhecimento exterior cria para si mesmo ilusões perigosas. Exteriormente parece luminoso. Interiormente permanece preso à necessidade de aprovação.
Por isso Kardec insiste tanto na figura do “homem de bem”. Não basta o gesto exterior. O Espiritismo analisa a intenção. Analisa o móvel oculto. Analisa o coração. A moral espírita não é teatral. É consciencial.
Quando o texto afirma que “a virtude verdadeiramente digna desse nome não gosta de estadear-se”, existe aí uma das maiores lições para o século moderno. A humanidade contemporânea desenvolveu extraordinária necessidade de exibição moral. Muitos desejam parecer bondosos antes mesmo de aprenderem a ser bondosos. Publicam virtudes. Fotografam caridade. Transformam sofrimento humano em vitrine emocional. Buscam aprovação coletiva sob aparência de benevolência.
O ensinamento espírita desmonta essa construção psicológica. A caridade real não humilha. Não se autopromove. Não faz do necessitado um instrumento de engrandecimento pessoal.
Em O Céu e o Inferno, observa-se repetidamente que Espíritos sofredores carregam após a morte exatamente os estados morais cultivados na Terra. Muitos conservaram orgulho intelectual, vaidade religiosa e ilusões de superioridade mesmo fora do corpo físico. Isso demonstra que a virtude aparente não transforma profundamente o Espírito. Apenas a renovação sincera possui força libertadora.
O exemplo citado de São Vicente de Paulo possui valor extraordinário. Homens assim raramente se percebiam virtuosos. Quanto mais elevados espiritualmente, mais consciência tinham de suas próprias imperfeições. Esse fenômeno também é analisado por Léon Denis. O Espírito realmente iluminado torna-se humilde porque compreende a vastidão do infinito e a pequenez relativa de suas conquistas. O ignorante acredita ter alcançado tudo. O sábio percebe o quanto ainda lhe falta.
Existe nisso uma dimensão profundamente filosófica. O orgulho produz endurecimento psicológico. A humildade produz expansão interior. O orgulhoso vive defendendo a própria imagem. O humilde preocupa-se em transformar a própria essência.
“Migalhas da Grande Mesa” encontra nesse trecho um de seus mais profundos símbolos. A grande mesa do Cristo não é composta pelos que exibem santidade. Ela acolhe aqueles que reconhecem sua própria insuficiência moral e ainda assim lutam diariamente contra si mesmos. As migalhas espirituais recebidas por uma alma sincera possuem mais valor que os banquetes da vaidade religiosa.
O homem virtuoso não se sente superior. Ele apenas compreende que toda criatura sofre. Por isso desenvolve compaixão. O orgulho separa. A virtude aproxima. O orgulho julga. A virtude compreende. O orgulho deseja tronos. A virtude prefere servir silenciosamente.
Em diversas mensagens da Revista Espírita, percebe-se que os Espíritos Superiores sempre associaram progresso espiritual à humildade. Não existe grandeza moral verdadeira sem renúncia ao personalismo. Quanto maior o apego à própria importância, menor a capacidade de amar.
Essa reflexão torna-se ainda mais necessária quando observamos quantas dores humanas nascem da necessidade de reconhecimento. Muitos fazem o bem esperando retorno emocional. Quando não recebem gratidão, adoecem moralmente. Isso ocorre porque ainda não compreenderam o princípio evangélico do desinteresse absoluto. O Cristo jamais condicionou o amor ao aplauso.
No Espiritismo, a virtude não é perfeição instantânea. É combate íntimo contínuo. É vigilância contra as infiltrações do egoísmo. É esforço silencioso contra a vaidade. É aprender a fazer o bem mesmo quando ninguém observa. É conservar dignidade mesmo na obscuridade. É manter pureza moral sem necessidade de testemunhas.
Léon Denis afirmava que a alma cresce lentamente “na dor, no dever e no sacrifício”. Essa construção não acontece nos palcos humanos. Ela acontece nas regiões invisíveis da consciência, onde somente Deus contempla integralmente as intenções.
Por isso a frase final do texto possui força profética admirável. “Pelo orgulho é que as humanidades sucessivamente se hão perdido. Pela humildade é que um dia elas se hão de redimir.”
Toda decadência moral das civilizações começou quando os homens passaram a amar mais a própria grandeza do que a verdade. Roma caiu moralmente antes de ruir politicamente. Religiões degeneraram quando trocaram humildade por poder. Famílias desmoronaram quando o orgulho venceu o perdão. Espíritos adoecem quando passam a idolatrar a própria imagem.
A humildade, porém, reconstrói aquilo que o orgulho destrói. Ela permite ouvir. Permite aprender. Permite corrigir-se. Permite amar sem dominar.
A verdadeira virtude não faz ruído. Ela atravessa a existência como luz discreta. Quase invisível aos homens. Absolutamente visível a Deus.
Obras consultadas
O Evangelho Segundo o Espiritismo
O Livro dos Espíritos
O Céu e o Inferno
A Gênese
Revista Espírita
O Problema do Ser, do Destino e da Dor
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