AS MIGALHAS DIANTE DO ABISMO. Do livro:... Marcelo Caetano Monteiro

AS MIGALHAS DIANTE DO ABISMO.
Do livro: MIGALHAS DA GRANDE MESA. Capítulo V
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Existe uma forma de morte que não depende do cemitério. Ela não necessita de lápides, velórios ou cortejos silenciosos. Sua manifestação ocorre nas regiões invisíveis da alma quando o homem perde a capacidade de permanecer sozinho diante da própria consciência. O corpo continua respirando. Os olhos continuam abertos. Os lábios ainda formulam discursos cotidianos. Contudo, interiormente, alguma coisa começou a decompor-se em absoluto silêncio.
O homem moderno tornou-se especialista em fugir de si mesmo. Preenche os dias com ruídos, excessos, distrações e superficialidades porque teme escutar aquilo que habita nos subterrâneos da própria existência. Há indivíduos que não suportam cinco minutos de silêncio sem sentirem a aproximação angustiante de um vazio interior. E justamente nesse vazio repousa uma das maiores tragédias espirituais da humanidade contemporânea.
Morre lentamente quem desaprendeu a contemplar.
Quem olha o céu sem reverência. Quem atravessa as manhãs sem perceber que cada aurora constitui uma convocação divina à renovação moral. Quem observa as árvores sem compreender que até mesmo a natureza carrega lições silenciosas de resistência, humildade e permanência.
As grandes enfermidades da alma começam quando o homem perde a capacidade de assombro.
A criatura espiritualmente adoecida já não se maravilha com a existência. Tudo se transforma em mecanismo. Tudo se reduz ao hábito. Tudo se converte em repetição cansada. O pão deixa de ser providência para tornar-se rotina. O abraço deixa de ser encontro para tornar-se formalidade. A oração deixa de ser transcendência para transformar-se em automatismo verbal.
E assim surgem multidões de vivos biologicamente ativos, porém espiritualmente sepultados.
Há homens que possuem casas amplas e consciências estreitas. Possuem vastos conhecimentos intelectuais, mas jamais desceram às profundezas do próprio espírito. Sabem discutir o universo inteiro, contudo desconhecem a si mesmos. Tornaram-se estrangeiros da própria interioridade.
Morre lentamente quem abandona o exame silencioso da própria consciência.
Porque toda criatura que evita confrontar a si mesma inevitavelmente constrói máscaras para sobreviver socialmente. O orgulho aprende a vestir-se de humildade aparente. A vaidade aprende a simular bondade. A solidão aprende a fantasiar felicidade. E o homem passa a representar versões artificiais de si mesmo até esquecer completamente quem verdadeiramente é.
As migalhas da grande mesa começam precisamente aqui.
Na percepção de que a alma humana tornou-se faminta de eternidade enquanto tenta alimentar-se apenas de matéria, aplausos, distrações e fugacidades emocionais. Existe dentro do homem uma fome metafísica que nenhuma conquista terrena consegue saciar integralmente. Nenhum prestígio. Nenhuma posse. Nenhuma exaltação pública.
Porque o espírito foi criado para o infinito.
E toda vez que ele tenta reduzir-se exclusivamente às experiências materiais, instala-se uma angústia silenciosa que corrói lentamente as estruturas interiores da existência.
Morre lentamente quem transforma a própria vida em sucessão automática de repetições sem significado moral. Quem acorda apenas para sobreviver. Quem trabalha apenas para consumir. Quem respira apenas para continuar biologicamente funcional.
Viver jamais significou apenas permanecer biologicamente ativo.
Viver é carregar dentro de si uma consciência desperta.
É possuir a coragem de enfrentar os próprios abismos interiores sem fugir para distrações constantes. É reconhecer as próprias misérias morais sem mergulhar em autodesprezo. É compreender que toda dor possui potencial educativo quando atravessada com dignidade espiritual.
Há sofrimentos que esmagam.
Mas também existem sofrimentos que revelam.
O homem espiritualmente lúcido compreende que certas dores não vieram para destruí-lo, mas para arrancar dele as ilusões que o impediam de amadurecer. Muitas lágrimas possuem finalidade purificadora. Muitas perdas libertam. Muitos silêncios reorganizam regiões inteiras da alma.
Morre lentamente quem já não consegue amar sem possuir.
Quem transforma afeto em domínio emocional. Quem exige garantias absolutas da vida. Quem deseja controlar até mesmo aquilo que pertence aos desígnios invisíveis da Providência.
O amor verdadeiro jamais floresce nas atmosferas do egoísmo.
Somente almas espiritualmente amadurecidas conseguem amar preservando liberdade, dignidade e transcendência.
Morre lentamente quem abandona a gratidão.
A ingratidão obscurece a percepção espiritual da existência. O homem ingrato habitua-se a olhar apenas aquilo que lhe falta, tornando-se incapaz de perceber as inúmeras misericórdias silenciosas que sustentam diariamente sua caminhada.
Respirar já é uma dádiva.
Pensar é uma dádiva.
Recomeçar é uma dádiva.
Até mesmo certas dores são dádivas ocultas quando impedem a criatura de permanecer moralmente adormecida.
As migalhas da grande mesa são justamente esses pequenos fragmentos de eternidade espalhados pelos dias comuns. Um olhar sincero. Uma lágrima honesta. Uma oração silenciosa durante a madrugada. O perfume da chuva atravessando a janela. A consciência pesada após um erro. O desejo íntimo de tornar-se alguém melhor.
Deus raramente grita.
Frequentemente Ele se manifesta nas pequenas migalhas que os homens distraídos desprezam.
Morre lentamente quem perdeu a capacidade de percebê-las.
A maior tragédia humana não consiste em sofrer. Consiste em sofrer sem aprender. Caminhar sem despertar. Existir sem consciência. Respirar sem transcendência.
Porque o verdadeiro túmulo da alma não é a terra.
É a indiferença espiritual.