MIGALHAS DA GRANDE MESA. CAPÍTULO III... Marcelo Caetano Monteiro
MIGALHAS DA GRANDE MESA.
CAPÍTULO III
“MUITO SE PEDIRÁ ÀQUELE QUE MUITO RECEBEU”.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
A advertência registrada no Evangelho de Lucas 12:48 e comentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 18, item 10, constitui uma das mais penetrantes análises morais da responsabilidade humana diante da consciência. Não se trata de ameaça teológica fundada em punições arbitrárias, tampouco de um decreto de severidade celeste elaborado para produzir medo religioso. O ensinamento revela, acima de tudo, a proporcionalidade espiritual entre aquilo que o Espírito recebe e aquilo que dele será moralmente exigido ao longo da existência.
Toda concessão da vida encerra um compromisso silencioso.
A inteligência recebida pede discernimento.
A fortuna recebida pede generosidade.
A autoridade recebida pede equilíbrio.
A mediunidade recebida pede disciplina.
O conhecimento espiritual recebido pede transformação interior.
Essa é uma das grandes tragédias morais da humanidade contemporânea. Muitos desejam possuir luz, porém poucos aceitam o peso ético que acompanha a claridade da consciência. O homem frequentemente suplica por entendimento, mas quando o entendimento chega, recusa-se a modificar os próprios impulsos inferiores. Deseja os privilégios da lucidez sem assumir as responsabilidades da elevação moral.
Dentro da proposta filosófica de Migalhas Da Grande Mesa, essa reflexão adquire profundidade ainda mais dolorosa. Existem criaturas famintas de afeto, dignidade, orientação e esperança, vivendo apenas das migalhas emocionais deixadas pelos banquetes do egoísmo humano. Enquanto alguns recebem excessivamente da existência, outros caminham mutilados pela ausência de amor, escuta e oportunidade. O Evangelho então desloca a pergunta para o íntimo da consciência.
“O que fizeste daquilo que recebeste.”
Não basta possuir conhecimento doutrinário. Não basta citar versículos, decorar conceitos ou discutir interpretações espirituais. A consciência não se ilumina pela quantidade de palavras acumuladas, mas pela capacidade de converter entendimento em virtude prática. O Espiritismo insiste nessa realidade com extraordinária lucidez psicológica. A reforma íntima vale mais do que a exibição intelectual. A caridade silenciosa vale mais do que discursos grandiosos. A indulgência salva mais do que a crítica sofisticada.
Muitos conhecem o Evangelho, porém continuam incapazes de dominar a própria agressividade.
Muitos estudam a imortalidade da alma, porém permanecem escravos do orgulho.
Muitos falam sobre amor universal, enquanto alimentam humilhações, vaidades e rivalidades ocultas.
O conhecimento espiritual que não desce ao coração converte-se apenas em ornamentação da vaidade.
Allan Kardec demonstra que o Espiritismo não surgiu apenas para consolar os aflitos, mas para educar moralmente a humanidade. Consolar sem transformar seria apenas anestesiar temporariamente as dores da alma. A Doutrina Espírita chama o indivíduo à responsabilidade diante de si mesmo. Cada verdade assimilada amplia o dever de renovação interior. Cada esclarecimento recebido elimina parcelas da desculpa baseada na ignorância.
Quanto maior a lucidez de um Espírito, mais grave se torna sua omissão perante o bem.
Esse princípio possui implicações psicológicas profundas. A consciência esclarecida sofre não apenas pelo mal que pratica, mas principalmente pelo bem que poderia ter realizado e negligenciou. Existem omissões que ferem mais do que atos violentos. Quantas pessoas poderiam ter acolhido e preferiram afastar-se. Quantas poderiam ter compreendido e escolheram julgar. Quantas receberam condições de auxiliar moralmente alguém à beira do desespero e permaneceram indiferentes pela comodidade do próprio egoísmo.
A Justiça Divina observa possibilidades desperdiçadas.
O Evangelho não examina somente erros aparentes. Examina potencialidades abandonadas. Analisa aquilo que o ser humano poderia ter se tornado caso tivesse ouvido a própria consciência.
Essa compreensão dissolve antigas concepções fatalistas da dor humana. O Espiritismo esclarece que ninguém está condenado eternamente ao sofrimento, nem abandonado pela Providência Divina. As dores terrestres obedecem a mecanismos educativos vinculados às Leis de causa e efeito, progresso e aprendizado espiritual. Deus não pune por vingança. Deus educa através das experiências. A dor frequentemente surge como recurso corretivo para consciências endurecidas pelo orgulho, pela ingratidão ou pela indiferença moral.
Por isso o Cristo afirmou que “muito se pedirá”. Porque toda luz recebida amplia a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E discernir gera responsabilidade.
O verdadeiro espírita não é identificado pela eloquência doutrinária, mas pela maneira como trata os semelhantes dentro das pequenas experiências da convivência diária. O grau evolutivo de uma alma manifesta-se menos no discurso e mais na delicadeza com que ela suporta as imperfeições humanas. A espiritualidade superior não se mede pela quantidade de fenômenos mediúnicos, mas pela capacidade de amar sem esperar recompensa.
“Espiritismo é amor.”
Essa expressão ultrapassa completamente o sentimentalismo superficial. Representa uma ciência moral do sentimento humano. Sem amor, a inteligência torna-se instrumento de dominação. Sem humildade, o conhecimento produz frieza. Sem caridade, a fé degenera em formalidade religiosa vazia. O homem pode conhecer profundamente as obras espirituais e ainda assim permanecer distante de Deus, caso não transforme o próprio coração.
A grande mesa da existência encontra-se repleta de oportunidades divinas. Contudo, muitos ainda vivem espiritualmente apenas das migalhas da vaidade, do orgulho e das ilusões transitórias do mundo material. Recebem abundantemente da vida, mas oferecem quase nada ao sofrimento alheio. Acumulam cultura, títulos e prestígio, porém permanecem pobres de misericórdia.
O Cristo não pediu perfeição imediata. Pediu sinceridade no esforço de renovação.
Toda criatura que recebeu esclarecimento espiritual tornou-se depositária de um patrimônio sagrado perante a eternidade. Cada palavra do Evangelho escutada pela consciência converte-se em responsabilidade futura. Cada oportunidade de amar negligenciada transforma-se em lição posterior. E cada gesto de bondade realizado em silêncio aproxima a alma das regiões superiores da vida.
“Feliz daquele que transforma conhecimento em bondade, porque já começou a converter a própria consciência em reflexo da Luz Divina.”
Fontes consultadas.
O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo 18, item 10.
O Livro dos Espíritos. Questões sobre progresso moral e responsabilidade espiritual.
A Gênese.
Revista Espírita.
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