O Beijo Anafranil Anafranil carrega peso... Afonso Cuinhane
O Beijo Anafranil
Anafranil carrega peso psicológico e profundidade. Paracetamol representa algo:
simples
cotidiano
acessível
que não resolve a causa, mas permite continuar o dia
E é exatamente isso que esse beijo faz... A chuva não caía.
Ela descia.
Descia pesada, insistente, como se o céu tivesse decidido lavar memórias antigas da cidade. As cheias de 2026 transformaram ruas em rios tímidos e corações em margens frágeis. Era uma dessas manhãs em que o mundo parece maior do que a gente e os sentimentos, ainda maiores.
Saí de casa ao lado da minha esposa, bela como quem não sabe que é bela. Linda como quem carrega tempestades por dentro. Eu sabia: ela estava aborrecida. Não comigo exatamente... mas comigo também. Às vezes, a raiva não tem endereço fixo. Ela nasce cansada, sem motivo claro, filha do dia, da vida, da comarca inteira.
Minutos antes, eu tinha dito algo mal explicado. Nada grave. Nada perigoso. Mas palavras mal pousadas são como fósforos em palha seca. Expliquei-me. Com calma. Com verdade.
Ela ouviu... mas não baixou a guarda. Seguimos em silêncio até a paragem.
O silêncio entre um casal não é vazio.
É cheio de pensamentos não ditos, de perguntas tímidas, de orgulho sentado no banco da frente.
Tentei falar de filosofia erro clássico. Quando o coração está fechado, a mente não abre janelas. Ela franzia a testa. A chuva batia no guarda-chuva como dedos impacientes. O mundo parecia assistir àquela cena em câmera lenta.
Então vi.
A testa franzida. O olhar nublado.
Passei a mão de leve. Um gesto pequeno, quase infantil. E, sem pedir licença ao medo, encostei os lábios por um segundo apenas no canto do seu sorriso adormecido.
Não foi um beijo de filme. Foi um sussurro de beijo.
E aconteceu.
Um pequeno sorriso escapou.
Daqueles que nascem sem pedir permissão.
Os olhos dela... ah, os olhos. Pareciam duas supernovas prestes a chover luz. Quando se carregam assim, antes da chuva, não destroem a terra regam.
Foi ali que me lembrei:
que amar também é aprender gestos.
Que cada beijo carrega um poder não mágico como nos contos de fada, mas humano o suficiente para parecer magia.
No frio da chuva, em meia tensão, recordei-me:
O Beijo Anafranil.
Abri o guarda-chuva como quem abre um portal. A chuva caiu sobre nós, e o mundo desapareceu por um instante. Olhei fundo nos olhos dela, hipnotizado, e dei o primeiro beijo da lista.
Não foi longo. Não foi apressado. Foi necessário.
O beijo Anafranil não apaga a razão da briga. Ele apaga o desejo de ferir.
Ele não diz: “Estás errada.”
Ele diz: “Estamos juntos, mesmo assim.”
Senti o coração dela desacelerar. O meu também. O corpo entende antes da cabeça. Sempre.
E naquele instante molhados, atrasados, voltámos a ser crianças que acreditam no faz-de- conta. Não o que mente... mas o que salva.
Ela sorriu. Eu sorri.
A chuva continuou.
E eu soube:
esse livro precisava começar ali.
