UMA CARTA PARA O MEU EU ADOLESCENTE Eu... Alinny de Mello
UMA CARTA PARA O MEU EU ADOLESCENTE
Eu percebi isso num dia qualquer, desses em que a gente está lavando um copo e, de repente, descobre que estava carregando um cemitério inteiro dentro do peito… e ninguém avisou que já podia ir embora. Porque tem uma hora em que a dor fica sem CPF, sem rosto, sem história. Ela vira só um costume mal educado que senta na nossa mesa e come sem ser convidado.
E foi aí que me caiu a ficha, meio torta, meio debochada, como quase todas as verdades importantes da vida. Eu não o conheço mais. E pior, talvez nunca tenha conhecido de verdade. Porque a gente não sofre exatamente por alguém… a gente sofre pela ideia que inventou dessa pessoa, pelo personagem que escreveu com todo capricho, como se fosse autora de uma novela das nove, cheia de reviravolta, trilha sonora e final feliz que nunca foi aprovado pela realidade.
E olha que curioso, eu ali, sofrendo com dedicação, quase pedindo um certificado de “melhor sofredora do ano”, enquanto o sujeito real já tinha ido embora há muito tempo… ou talvez nem tivesse existido daquele jeito. Era como chorar por um ator depois que a peça acaba, sendo que ele já tirou o figurino, já foi embora, já está comendo um pastel na esquina e eu aqui, abraçada no palco vazio, pedindo bis.
Não dá mais. Chega uma hora em que o sofrimento perde a lógica, perde a elegância, perde até a vergonha na cara. Porque sofrer por quem você não conhece mais é como mandar mensagem pra número errado e ficar esperando resposta com o coração na mão. Não vem. Não vai vir. E se vier, provavelmente é golpe.
E não é frieza, não. É lucidez com um leve tempero de amor próprio, coisa fina, coisa rara, quase artigo de luxo emocional. É entender que o que acabou não foi só a relação… foi também a versão dele que eu criei dentro de mim. E essa versão, coitada, nunca teve culpa de nada, sempre perfeita, sempre justificável… um verdadeiro santo canonizado pela minha carência.
Mas eu cansei de fazer milagre pra quem nunca foi santo.
Agora eu olho pra trás com aquela mistura de riso e vergonha, tipo quando a gente lembra de uma roupa horrível que jurava que era linda. E era isso… eu estava vestindo um sentimento que não me servia mais, apertado, desconfortável, mas insistindo porque um dia já tinha sido bonito.
Hoje não dói. E se dói, dói diferente, dói com dignidade, sem drama exagerado, sem trilha sonora triste. Dói como quem entende… e segue. Porque eu não consigo mais sofrer por quem eu não conheço. E sinceramente, isso é um alívio tão grande que chega a ser engraçado.
A vida continua, meio bagunçada, meio irônica, mas muito mais leve sem esse peso desnecessário no coração. E no fim das contas, talvez o maior ato de amor que eu poderia ter feito… foi parar de amar sozinha.
Agora me conta… você também já percebeu que estava sofrendo por um completo desconhecido?
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