CLADISSA - ROMANCE DE: Marcelo Caetano... Marcelo Caetano Monteiro

CLADISSA -
ROMANCE DE:
Marcelo Caetano Monteiro.

CAPÍTULO XXI
A DIGNIDADE DO PENSAMENTO.
O entardecer descia lentamente sobre as colinas da Úmbria. As muralhas do mosteiro, erguidas em pedra austera, recebiam a luz crepuscular que lhes dava uma aparência grave e solene. No interior da antiga sala capitular, onde tantas decisões haviam sido tomadas ao longo das décadas, uma atmosfera de tensão espiritual parecia suspensa no ar.
Ali estava Cladissa.
A jovem mantinha postura serena, embora soubesse que sua presença naquele recinto não era um simples chamado disciplinar. Diante dela encontrava se o superior da ordem, homem de idade avançada, cuja autoridade era reconhecida tanto pela hierarquia religiosa quanto pelos senhores feudais da região.
Entre ambos havia silêncio.
Não era um silêncio vazio. Era o silêncio das épocas em que ideias novas ameaçam tocar os alicerces do costume.
O superior observava Cladissa com uma mistura de inquietação e severidade.
Filha, começaram a chegar relatos perturbadores sobre tuas palavras. Dizem que tens falado de liberdade entre os irmãos, de consciência livre diante de Deus, de pensamento que não se curva diante da tradição.
Cladissa não abaixou os olhos.
Sei do que falam, respondeu ela com serenidade. Mas nada disse que não esteja já gravado no espírito humano desde sua origem.
O velho religioso inclinou levemente a cabeça.
Explique se.
A jovem respirou profundamente, como quem recolhe as próprias convicções na região mais íntima da alma.
Deus concedeu ao ser humano algo que nenhuma instituição pode possuir em seu lugar. A consciência. E onde existe consciência, existe também o direito de pensar. Se a fé não puder atravessar o crivo da razão, então ela não passa de temor disfarçado.
O superior franziu o semblante.
Cuidado com tuas palavras. A liberdade que defendes pode dissolver a ordem que protege a fé.
Cladissa respondeu com voz firme, porém respeitosa.
Não é a liberdade que destrói a fé. É o medo que a enfraquece. Quando a verdade é autêntica, ela não teme o pensamento. Pelo contrário, ela o convida.
O religioso levantou se lentamente.
Durante séculos, a Igreja preservou a unidade da crença. Sem autoridade, o mundo mergulha no caos das opiniões.
Cladissa ergueu o olhar para a janela estreita por onde a última luz do dia penetrava.
A unidade que nasce do medo é apenas silêncio imposto. A verdadeira unidade nasce da compreensão. Cada espírito caminha por sua própria jornada interior. Nenhuma alma cresce sob o peso da imposição.
O superior caminhou alguns passos pela sala.
Tua linguagem é perigosa. Ela semeia inquietação. As pessoas simples não compreendem essas sutilezas. Precisam de orientação, não de questionamentos.
Cladissa voltou a fitá lo.
A orientação não deve apagar a luz interior do homem. Quando a autoridade impede o pensamento, ela transforma a fé em servidão.
O silêncio tornou se mais pesado.
Por alguns instantes, o superior pareceu lutar internamente entre a admiração e o dever institucional.
Sabes que muitos já te acusam de heresia.
Cladissa respondeu sem hesitação.
Se pensar é heresia, então a própria razão humana seria uma falha na criação divina. Mas eu não creio que Deus tenha criado o espírito humano para que ele viva acorrentado.
O velho religioso fixou nela um olhar profundo.
Estás consciente das consequências de tuas ideias.
Sim.
E ainda assim as defendes.
Sim.
A serenidade da resposta parecia mais poderosa que qualquer desafio.
Cladissa continuou.
A verdade não pertence às instituições. Ela pertence ao espírito que busca compreender. Se o homem não puder perguntar, também não poderá aprender. E se não puder aprender, permanecerá sempre infantil diante do universo.
A noite começava a cair.
Lá fora, passos ecoavam no pátio de pedra.
O superior voltou lentamente à cadeira.
Filha, talvez não percebas que tuas palavras abrem portas que muitos temem atravessar.
Cladissa respondeu com doçura grave.
Toda época teme o primeiro passo em direção à liberdade. Mas o pensamento é como o vento. Pode ser contido por algum tempo, porém jamais aprisionado para sempre.
Naquele instante, a porta da sala capitular abriu se com brusquidão.
Dois guardas do senhor feudal entraram.
O superior não se moveu. Seu olhar permaneceu fixo em Cladissa.
Ela compreendeu.
A jovem ergueu se com dignidade tranquila, como alguém que já esperava aquele momento.
Antes de sair, voltou se uma última vez para o superior.
A liberdade de pensar não nasce da rebeldia. Nasce da própria estrutura da alma humana. E um dia, mesmo aqueles que hoje a temem compreenderão que nenhuma verdade pode florescer sob correntes.
Cladissa foi conduzida para fora.
A porta fechou se lentamente.
E na sala silenciosa permaneceu apenas a inquietação de uma ideia que, uma vez pronunciada, jamais poderia ser completamente silenciada.
Porque quando uma consciência ousa afirmar a dignidade do pensamento, ela inaugura no mundo uma chama que nem mesmo as sombras da história conseguem apagar.