Há algo de impreciso no começo das... GabrieldeArruda

Há algo de impreciso no começo das coisas
como se o mundo hesitasse
antes de permitir que existam


foi assim quando ela falou
e não era o que dizia
era o modo como o tempo cedia
se organizando ao redor da sua voz
como se, por instantes, viver fosse apenas escutar


segurei sua mão
com o cuidado inútil de quem testa o real
como se o toque bastasse
contra todas as dúvidas


não bastava
mas houve um intervalo
em que isso deixou de importar


o abraço dela não me acolheu
me suspendeu
como se o corpo, enfim, esquecesse
a necessidade de se defender


e então o balanço


subíamos
não o suficiente para escapar
mas o bastante para esquecer o peso
o chão permanecia — paciente
como tudo que é inevitável


o céu, distante
como tudo que chama


entre um e outro
havia um erro breve no mundo
onde nada exigia conclusão


ríamos
com uma leve irresponsabilidade
como se a queda fosse improvável
e não certa


penso nela
e o pensamento não repousa
me desloca


como o balanço
que não pertence ao alto nem ao baixo
mas a esse entre
onde tudo se sustenta por um instante
e nada promete ficar


há um medo quase silencioso
de ser apenas isso
o intervalo


enquanto o outro
talvez espere algo mais firme
mais inteiro
mais digno de permanecer


ainda assim
há esse impulso
de voltar ao ar


não por coragem
mas por uma espécie de esquecimento
do chão


e, por um instante,
olhar para cima
parece suficiente