VOSSOS FILHOS E VOSSAS FILHAS... Marcelo Caetano Monteiro

VOSSOS FILHOS E VOSSAS FILHAS PROFETIZARÃO. A MEDIUNIDADE NA INFÂNCIA SEGUNDO A REVISTA ESPÍRITA DE 10.1865.
O episódio narrado na Revista Espírita de 10.1865 apresenta um testemunho singular acerca da manifestação mediúnica em idade infantil. O relato descreve um acontecimento ocorrido na família de Gabriel Delanne, ainda quando este era criança. O texto foi redigido por Allan Kardec e integra a seção “Variedades”, na qual o codificador frequentemente registrava fatos observados nas experiências espíritas de seu tempo.
O relato inicia mencionando que o Sr. Delanne possuía um filho de oito anos. A criança, crescendo em ambiente profundamente familiarizado com os princípios do Espiritismo, ouvia frequentemente discussões doutrinárias e assistia às reuniões dirigidas por seus pais. Por essa razão, surpreendia os adultos pela lucidez com que discorria sobre os princípios espirituais. O próprio texto esclarece que tal fenômeno intelectual não era extraordinário, pois se tratava do reflexo das ideias assimiladas no ambiente doméstico. Contudo, o fato que motivou o artigo não era apenas essa precocidade intelectual.
As reuniões conduzidas na casa do Sr. Delanne eram caracterizadas por gravidade moral, disciplina metodológica e profundo recolhimento. Nelas predominavam comunicações escritas, embora ocasionalmente se realizassem manifestações físicas e tiptológicas com finalidade instrutiva. Essas experiências nunca eram apresentadas como espetáculo ou curiosidade, mas como instrumento pedagógico destinado à convicção racional. O texto enfatiza que, quando conduzidas com seriedade e sustentadas por explicações teóricas, tais manifestações afastam a suspeita de charlatanismo e conduzem à reflexão profunda sobre a natureza espiritual dos fenômenos.
Foi nesse ambiente que o jovem Gabriel se habituara a observar tais manifestações, sempre compreendendo que se tratavam de fatos graves e respeitáveis.
Certo dia, encontrando se na casa de conhecidos, ele brincava no pátio com três outras crianças. Uma senhora que residia no rés do chão convidou os pequenos a entrarem e lhes ofereceu bombons. Durante a conversa, perguntou ao menino:
“Como te chamas, meu filho”.
Ele respondeu:
“Eu me chamo Gabriel, senhora”.
A senhora prosseguiu:
“Que faz teu pai”.
O menino respondeu com naturalidade:
“Senhora, meu pai é espírita”.
A senhora declarou não conhecer tal ocupação. O menino explicou que não se tratava de profissão remunerada, mas de atividade realizada desinteressadamente para o bem dos homens. Em seguida perguntou se ela já ouvira falar das mesas girantes. Diante da resposta negativa, a senhora comentou que gostaria de ver o pai do menino produzir tal fenômeno.
O menino respondeu com simplicidade:
“Não precisa, senhora. Eu mesmo tenho o poder de fazê las girar”.
Aceitando a experiência, a senhora convidou as crianças a tentar. O pequeno Gabriel sentou se diante de uma mesinha da sala, colocou as mãos sobre ela juntamente com seus três companheiros e realizou uma evocação em tom sério e recolhido. Logo após a evocação, a mesa elevou se e produziu fortes pancadas, provocando surpresa na senhora e nas próprias crianças.
Gabriel então sugeriu que a senhora perguntasse quem estava respondendo através da mesa. O fenômeno tiptológico soletrou as palavras:
“Teu pai”.
A senhora empalideceu diante da resposta. Tomada pela emoção, perguntou se deveria enviar uma carta que acabara de escrever. A resposta foi afirmativa. Buscando confirmação, pediu ao espírito que dissesse há quantos anos estava morto. A mesa bateu oito pancadas. Era exatamente o número de anos transcorridos desde o falecimento.
Ainda pediu que fossem indicados o nome do pai e a cidade onde ele morrera. Ambos foram soletrados pela mesa.
Nesse momento a senhora foi tomada por profunda emoção e não conseguiu continuar o interrogatório. As lágrimas jorraram de seus olhos, dominada pela impressão do ocorrido.
O texto conclui observando que o fato exclui diversas hipóteses de fraude. Não houve preparação prévia do instrumento, nem intenção de enganar. A coincidência exata dos nomes e do número de anos transcorridos desde a morte torna extremamente improvável qualquer explicação baseada no acaso.
O autor recorda ainda que não era a primeira vez que manifestações mediúnicas surgiam em crianças dentro do ambiente familiar. O episódio seria uma confirmação da antiga profecia registrada em Bíblia no livro de Atos dos Apóstolos 2.17:
“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão”.
Na interpretação espírita, esse versículo anuncia a universalização da mediunidade no período de renovação espiritual da humanidade. A manifestação mediúnica na infância, quando orientada com prudência e equilíbrio moral, revela a continuidade das faculdades do espírito além da existência corpórea.
Essa temática é examinada de modo sistemático em O Livro dos Médiuns, particularmente nos capítulos dedicados às manifestações físicas e aos cuidados necessários no exercício da mediunidade por jovens, bem como em A Gênese, onde se analisa a dimensão profética do versículo evangélico.
O episódio preservado na Revista Espírita permanece como documento histórico do movimento espírita nascente no século XIX, ilustrando a convicção de que a faculdade mediúnica pode manifestar se espontaneamente em diferentes idades, sempre exigindo orientação moral, discernimento doutrinário e espírito de responsabilidade.