⁠Há que se ponderar que ninguém é... Alessandro Teodoro

⁠Há que se ponderar que ninguém é Odiado nem Amado por todos, como se tenta sustentar a Opinião Pública. A opinião pública, quase sempre, é vendida como se foss... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Há que se ponderar que ninguém é Odiado nem Amado por todos, como se tenta sustentar a Opinião Pública.


A opinião pública, quase sempre, é vendida como se fosse uma entidade sólida, homogênea, unânime — uma espécie de tribunal invisível que já teria chegado ao seu veredito final sobre pessoas, ideias e acontecimentos.


Mas basta um olhar menos apressado para perceber que essa suposta unanimidade costuma ser muito mais barulhenta do que verdadeira.


O que se chama de “todos” raramente é todos; na maior parte das vezes, é apenas o recorte mais estridente de uma parcela que conseguiu transformar sua voz em aparência de consenso.


Nenhum ser humano é simples o bastante para ser amado por todos, nem desprezível o bastante para ser odiado por todos.


A própria complexidade das relações humanas desautoriza esse tipo absurdo de sentença absoluta.


Quem hoje é exaltado por muitos, inevitavelmente será incompreendido, criticado ou rejeitado por outros.


E quem hoje é alvo de repulsa coletiva, ainda assim encontrará, em algum canto, quem enxergue nuances, contradições, contextos ou mesmo humanidade onde a multidão só quis despejar rótulos.


O problema é que a opinião pública contemporânea não se contenta com a discordância; ela tem fome de totalidade.


Ela não quer dizer que alguém é controverso, quer decretar que alguém é unanimemente admirável ou integralmente detestável.


Porque os extremos são mais fáceis de consumir.


Eles dispensam reflexão, economizam complexidade e oferecem ao público a ilusão confortável de pertencer ao lado certo da história sem o incômodo de pensar demais.


Só que a realidade não se curva tão facilmente à teatralidade dos julgamentos coletivos.


As pessoas carregam Grandezas e Misérias ao mesmo tempo.


Podem ser sinceramente admiradas por algumas virtudes e legitimamente criticadas por falhas graves.


Podem despertar amor em certos corações e repulsa em outros, sem que isso constitua contradição alguma.


Contraditório, na verdade, é imaginar que a experiência humana possa ser reduzida a uma votação emocional universal.


Talvez uma das maiores fraudes do nosso tempo seja justamente essa fabricação de unanimidades artificiais.


Não para revelar o que as pessoas de fato pensam, mas para constranger quem pensa diferente.


Quando se repete que “todos amam” ou “todos odeiam”, o que se tenta impor não é uma constatação, mas uma pressão.


É a tentativa de transformar percepção em obediência, sentimento em manada, juízo em reflexo condicionado.


Pensar com honestidade exige romper esse feitiço medonho.


Exige entender que a aclamação coletiva pode ser só euforia passageira, assim como a rejeição coletiva pode ser apenas a febre moral de um tempo doente por certezas fáceis.


Exige, sobretudo, maturidade para reconhecer que a humanidade não cabe nessas molduras brutais de amor ou ódio absoluto.


No fundo, talvez o que mais distorce a opinião pública não seja a existência de divergências, mas o esforço constante para apagá-las em nome de narrativas convenientes.


E é justamente aí que mora o perigo: quando a pluralidade real dos afetos humanos é sacrificada para sustentar a ficção de que todos sentem o mesmo.


Porque sempre que tentam nos convencer de que alguém é amado ou odiado por todos, talvez estejam menos descrevendo o mundo e mais tentando domesticá-lo.