O AMOR QUE SE DESFAZ Amor é desconexo e... Jeremias Edson Cardoso

O AMOR QUE SE DESFAZ

Amor é desconexo e abstrato.

Hoje, só me resta o vazio
e a velha certeza:
esse sentimento invisível
fere a alma
e sangra o peito,
facada a facada,
quando retorna ao nada.
Ecoam promessas murchas

na boca de quem diz “eu te amo”:
veneno suave, imperceptível.
O amor é farsa disfarçada de bondade,
cheia de uma maldade silenciosa
que corrói a alma ingênua
de quem acredita no impossível.
É o inverso do afeto,

o golpe que transforma âmago em amargo,
o gelo que incendeia por dentro
na desmoralização lenta do sentir.
Esse maldito não existe —
mas devasta.
E quando parte,

desfaz-se ao vento
como teia frágil de ilusão.
A quem acredita no vago,

resta a navalha da dor,
o desespero que rói os ossos,
o abismo que engole cada palavra doce
em nome de um amor-ferida,
que sangra abstração.
É armadilha cruel,

voto que se desfaz sem nascer.
Não acredito no amor —
pois nada sobra
quando o desejo evapora
e revela a realidade nua.
O inexistente amor,

complexo e rasgante,
é o que mais dilacera a alma,
transformando sonhos em desilusão.
É mentira que se sustenta entre nós

até que morram a lealdade e a confiança.
Primeiro sentido,
depois abstrato,
depois veneno.