Acordei num silêncio que desfiava luz... Jeremias Edson cardoso

Acordei num silêncio
que desfiava luz pela contramão do ar.
Havia caminhos sussurrados
antes mesmo de existirem,
e duas janelas marchavam pelo teto
como sentinelas sem rosto.
Meu nome em pó num copo vazio
desaprendia a ser meu.
A casa, por fora, era um abraço inquieto,
mas eu avançava sem passos,
colecionando sombras
como restos de um dia recusado.
Um pássaro de barro
tentou cantar meu rosto:
respondi oferecendo peso ao vento.
Tudo soava em desacordo,
ruídos desalinhados,
cores exalando lembranças
que ninguém havia vivido.
Virei a dobra do pensamento:
toda presença era ausência mascarada.
A luz desfiada, medo de clareza;
o ar inventando rotas,
minha urgência de fugir.
As janelas marchando
eram terras que nunca adentrei,
e as sombras guardadas,
lugares onde ainda não sei onde é
O pássaro de barro rígido era afeto impossível
insistia no meu silêncio.
Ao fechar a porta do peito,
o abraço virou fronteira.
Desci. O passo caiu de mim.
O telefone permaneceu mudo,
enquanto o mundo chamava meu nome
sem voz, sem idioma.
Escrevi uma linha torta
hoje deixo que o que me falta
que me conduza
para dentro da escuridão
que insiste em não ter forma.