A corte dos espelhos turvos Há colegas... Rafael Zafalon
A corte dos espelhos turvos
Há colegas que vestem ternos de bruma
e caminham pelos corredores como sinos ocos —
anunciam meu nome ao vento
não para celebrá-lo,
mas para que o eco me fira.
São jardineiros de inverno:
regam o chão com denúncias
e colhem suspeitas.
Sorriem com a boca em lua minguante
enquanto afiam silêncios nas gavetas.
Não me apreciam —
apreciam o ruído da queda.
Há mestres que carregam livros
como se fossem cetros,
mas esqueceram o verbo ensinar
no fundo de uma gaveta antiga.
Erguem muros com a gramática
e me deixam do lado de fora
como se minha diferença
fosse erro de concordância.
Não me respeitam.
Chamam de desvio o que é constelação.
Ignoram que meu pensamento
é rio subterrâneo —
corre em mapas que eles não estudaram.
E os chefes —
ah, os chefes —
prometem portos com voz de farol
mas apagam a lâmpada antes da travessia.
Deixam-me a ver navios
que nunca foram meus,
apenas miragens costuradas
com fios de salário e aplauso.
São capitães de papel.
Assinam contratos como quem assina nuvens.
E quando a tempestade chega,
sou eu quem aprende a nadar
entre destroços de confiança.
Mas o mais fundo é a casa.
A família —
que deveria ser lareira —
às vezes é corredor frio.
Não entendem minha mente
como quem não entende
uma língua antiga escrita nas paredes.
Chamam de exagero o que é sensibilidade,
de teimosia o que é precisão,
de drama o que é sobrecarga.
Minha neurodivergência
é jardim noturno —
floresce na sombra,
ouve o que o dia não ouve,
vê o que o óbvio não revela.
Mas eles fecham as janelas
e reclamam do perfume que não sentem.
Ainda assim,
eu permaneço.
Sou farol mesmo na neblina.
Sou árvore que cresce torta
porque o vento insiste —
e ainda assim cresce.
Que denunciem.
Que desrespeitem.
Que enganem.
Que não compreendam.
Eu não sou erro na partitura.
Sou música em outro tom.
E quando o mundo se acostumar
a escutar com mais do que os ouvidos,
verá que minha diferença
não era falha —
era claridade
em olhos desacostumados à luz.
