Você se foi. E eu fiquei. Não inteiro... Bruno Ventura Flores
Você se foi.
E eu fiquei.
Não inteiro —
um esboço.
Um rascunho de homem
que esqueceu onde guardava o próprio chão.
Você me tirou os pés do mundo
e me ensinou a voar sem asa.
Depois foi embora
e deixou o céu alto demais
pra quem nunca aprendeu a pousar sozinho.
Na Praia da Reserva,
o sal era menos salgado que seu beijo.
Você me olhou
como se soubesse de algo
que eu só entenderia tarde demais.
Ali, sem saber,
eu vivi o melhor dia da minha vida
e comecei a perder você.
Você diz que não trocou.
Mas trocou.
Escolheu teto rachado
ao invés de tempestade verdadeira.
Escolheu segurança frágil
ao invés de amor que tremia as estruturas.
Talvez eu fosse risco demais.
Talvez eu fosse verdade demais.
Você virou muleta
de um homem que precisa de você
pra não cair.
E ele virou peso
que você chama de estabilidade.
Dois dependentes
chamando carência de família.
E eu aqui —
com a arrogância triste
de saber que fui tudo
o que você precisava
e ainda assim
não fui o que você escolheu.
Eu te amo
de um jeito que não cabe em explicação.
De um jeito quase infantil —
como quem escreve cartas que nunca envia,
como quem faz música
pra não enlouquecer no silêncio.
Mas talvez eu tenha errado
quando fiz de você
um pedido ao universo.
Você não é deusa.
Não é destino.
Não é energia cósmica.
Você é humana.
E humanos vão embora.
Se você é amor,
também é caos.
Se é família,
também é ausência.
Se é destino atravessado,
é porque escolheu atravessar —
não ficar.
E eu preciso reaprender
que homem não se define
por quem fica ao lado dele.
Incêndio é lindo à noite.
Mas de manhã
ele só deixa cinza.
Eu te amei como chama.
Agora preciso aprender
a ser brasa que não depende
de outro fósforo
pra existir.
