Atravessando o rio gélido de um destino... Tiago Scheimann
Atravessando o rio gélido de um destino não tão bonito, em uma velha jangada, anunciando sua trajetória lenta, pesada, tocando um sino enferrujado, com seu som abafado, como se estivesse submerso, sendo afogado, feita de almas atormentadas, cheias de dor, pelo fundo pedregoso, margens lamassentas e ao horizonte, não existem margens, o rio não se finda e o céu, baixo e cinzento, curva-se como um teto prestes a ruir, comprimindo o ar nos pulmões já cansados, a corrente não conduz, apenas arrasta, e cada braçada é um adeus ao que ficou para trás, enquanto a jangada range, como se soubesse que não há porto, não há farol, não há terra firme, apenas o curso interminável dessa água fria que não acolhe, não absolve, não esquece. E assim sigo, não por esperança, mas por não haver retorno, deixando que o sino continue seu lamento mudo, até que o próprio som se dissolva na névoa, e eu me torne parte do rio que jamais termina.
