Do caroço da fruta, sou o que resta, um... Jeremias Edson Cardoso
Do caroço da fruta, sou o que resta,
um eco do que já fui.
Na vida que carrego, amei verdadeiramente —
amor que morreu, silêncio que ficou.
Precisei emprestar meu próprio eu,
desajustado, estranho a mim mesmo,
e devolvi o que não me cabia.
Fizeram de mim um ser largado,
rasgado, perdido no mundo alheio.
Deitaram-me em leito de espinhos,
gemidos presos em gritos mudos,
fogo gelado que queima por dentro.
Minha alma ardia, descartada,
na lata do lixo onde o bicho devora,
latidos de abandono.
Um gato de sapato bicudo,
matador silencioso no canto da casa,
olha e sorri com malícia fria.
Cavei minha própria cova,
enterrado com a terra que tirei,
assustado despertei,
e voltei a dormir —
perdido no labirinto de mim mesmo.
