Entre o Espetáculo e o Silêncio Há... Tatianne Ernesto S. Passaes

Entre o Espetáculo e o Silêncio


Há existências que se erguem sobre o palco. São vidas que se alimentam da visibilidade, que transformam cada gesto em performance e cada instante em proclamação. Cercadas de amigos, festas e aplausos, parecem plenas de movimento e alegria. Mas por trás da música alta e das luzes cintilantes, há um vazio que não se confessa: a solidão.
Nessa vida, as necessidades pessoais tornam-se supremas, superiores a qualquer vínculo — filhos, pais, companheiros. O mundo gira em torno do desejo de ser visto, desejado, celebrado. A festa é refúgio, mas também prisão: companhia efêmera, vínculos superficiais, afeto substituído por euforia. No fim da noite, quando o silêncio retorna, resta apenas a ausência. A afirmação de que se está só “por opção” é narrativa defensiva, sustentada por padrões inalcançáveis de um parceiro ideal. O brilho fora compensa o vazio dentro, e a superioridade proclamada é apenas máscara para a fragilidade interna.
Mas há também outra forma de existir: aquela que se retira do palco e encontra força no silêncio. Essa vida não precisa de plateia, não depende de aplausos, não busca confirmação externa. Cada instante é vivido em sua plenitude, não como espetáculo, mas como presença. A viagem não é conteúdo, é vivência. O encontro não é performance, é intimidade. O cotidiano não é vitrine, é verdade.
Na sociedade da visibilidade, escolher a invisibilidade é um ato de resistência. É afirmar que nem tudo precisa ser mostrado, que há dimensões da vida que só fazem sentido no silêncio. Quem não precisa ser visto é livre: livre das expectativas, dos julgamentos, das comparações. Livre para errar sem plateia, para acertar sem aplausos, para existir sem máscaras.
Assim, temos dois modos de ser:


O da festa interminável, que parece abundância, mas termina em solidão.
O do silêncio autêntico, que parece ausência, mas revela plenitude.


Entre o espetáculo e o silêncio, cada um escolhe o modo como deseja existir. Mas é no silêncio, e não na festa, que a vida encontra sua densidade mais profunda. Pois o verdadeiro sentido não está em ser visto, mas em ser.


Tatianne Ernesto S. Passaes