O ESVAZIAMENTO DOS CENTROS ESPÍRITAS E... MARCELO CAETANO MONTEIRO
O ESVAZIAMENTO DOS CENTROS ESPÍRITAS E A RESPONSABILIDADE MORAL DOS QUE CONDUZEM A SEARA.
O movimento espírita atravessa um fenômeno silencioso e grave. A evasão contínua de trabalhadores, frequentadores assíduos e até de antigos dirigentes não ocorre por acaso nem pode ser atribuída unicamente às dificuldades do mundo moderno. Há causas internas profundas que precisam ser analisadas com lucidez doutrinária, honestidade moral e fidelidade ao Espiritismo como ele é, e não como alguns desejam que seja.
Muitos irmãos laboriosos que sustentaram por décadas tarefas humildes e essenciais nos Centros Espíritas retornaram à espiritualidade maior, após cumprirem missões extenuantes e discretas. Outros, contudo, afastaram-se ainda encarnados. Não por rebeldia. Não por indisciplina moral. Mas por feridas íntimas causadas por maus tratos sutis, vaidades disfarçadas, autoritarismos fraternalmente maquiados e pelo abandono progressivo do ideal espírita em favor de personalismos.
Allan Kardec advertiu com clareza em O Livro dos Médiuns que o Espiritismo não sobreviveria se fosse entregue ao orgulho, à ignorância e ao desejo de domínio. Ensinou que a autoridade moral nasce da coerência entre o que se ensina e o que se vive. Quando dirigentes se afastam dessa coerência, instauram um escândalo silencioso que não aparece em atas nem em estatísticas, mas se manifesta na ausência progressiva dos que não compactuam com o desvio.
Léon Denis aprofundou essa reflexão ao afirmar que o Espiritismo é antes de tudo uma filosofia moral regeneradora. Onde não há elevação ética, não há Espiritismo. Há apenas discurso vazio. Centros que se transformam em palcos de vaidade intelectual ou em vitrines de prestígio pessoal deixam de ser casas de socorro espiritual e passam a ser instituições ocas. Denis foi categórico ao afirmar que a Doutrina perece quando seus representantes traem o espírito que a anima.
Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Franco, esclarece que a evasão espiritual muitas vezes é consequência da incoerência psicológica dos líderes. O discurso fala de amor, mas a prática revela frieza, sejamos honestos. Fala se de humildade, mas exerce-se o controle. Fala-se de fraternidade, mas promove-se a exclusão sutil dos que pensam diferente. A psique humana não suporta por muito tempo essa dissonância. O indivíduo afasta-se para preservar a própria saúde emocional e espiritual, antes que o orgulho atacado.
Emmanuel foi ainda mais severo. Alertou que o trabalhador espírita que se vale da Doutrina para impor-se e disfarçadamente, dominar consciências ou alimentar o próprio ego responde por débitos morais graves. A Casa Espírita não pertence aos encarnados. É patrimônio do Cristo. Quando se personaliza, humaniza, o movimento, quando se transforma a instituição em extensão do temperamento ou das conveniências de alguns, instala-se uma forma de traição silenciosa ao Evangelho.
Raul Teixeira tem sido incisivo ao denunciar a superficialização do ensino espírita. Segundo ele, muitos Centros substituíram o estudo sério pela palestra motivacional rasa. Aqui é fundamental fazer uma distinção clara e inadiável.
Palestra é exposição retórica, muitas vezes emocional, centrada no orador, em exemplos pessoais ou em mensagens genéricas de conforto. Exposição espírita, por outro lado, é ensino doutrinário estruturado, fundamentado nas obras básicas, no Evangelho e na razão. A exposição não visa aplauso. Visa esclarecimento. Não busca agradar. Busca despertar consciências.
Quando a Casa Espírita e ou o orador, abandona a exposição doutrinária e passa a viver apenas de palestras repetitivas, desconectadas do estudo sistematizado, ela enfraquece o intelecto moral do frequentador. O indivíduo não encontra respostas profundas. Essa manobra passa por alguns, mas não por todos, por isso logo ao mais lúcido da platéia ruirá. Não encontra base racional para a dor. Não encontra coerência entre fé e razão. E, pouco a pouco, afasta-se.
Há ainda a questão do compromisso moral dos que estão à frente. Dirigir um Centro Espírita não é ocupar um cargo. É assumir uma responsabilidade espiritual grave com encarnados e desencarnados, não se iluda que poderá se dar ao luxo pelo menos uma uma vez fazer assim ou assado. O Senhor da vinha enviará os que estão a seu mando, e se caso o for tardar ele próprio virá. Kardec jamais tratou a liderança espírita como privilégio. Sempre a apresentou como serviço e sacrifício. Quando dirigentes não estudam, não se renovam, não se auto examinam e não aceitam correção fraterna, tornam-se obstáculos ao progresso da Casa.
A evasão atual é também um grito silencioso dos que não suportam mais a hipocrisia institucionalizada, a rigidez sem amor, a disciplina sem misericórdia e o discurso elevado sem vivência correspondente. Não se trata de atacar pessoas, mas de denunciar posturas que adoecem o movimento.
O Espiritismo não precisa de animadores de plateia. Precisa de educadores da alma. Não precisa de líderes carismáticos. Precisa de servidores coerentes. Não precisa de discursos longos e vazios. Precisa de exemplos silenciosos e constantes.
Se os Centros Espíritas desejam sobreviver espiritualmente, precisarão retornar às fontes com seriedade de realizações humildes no Estudo sério de O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns. Formação moral contínua dos dirigentes. Humildade institucional. Escuta real dos que frequentadores diretos ou indiretos, afinal existe uma Comissão, ouvir os que sofrem e não lhes entreterem com palestras que em seu cerne não são palestras e nem são eficazes. E, acima de tudo, fidelidade ao Cristo, não apenas nas palavras, mas nas decisões difíceis do cotidiano.
Quando o Espiritismo volta a ser vivido e não apenas falado, os que se afastaram começam a retornar. Não por convite formal, mas porque a verdade moral sempre reencontra os que a buscam. E somente assim o movimento espírita deixará de perder almas cansadas e voltará a ser, como sempre foi chamado a ser, escola de consciência, hospital da alma e oficina viva do Evangelho em ação.
A OMISSÃO DA LIDERANÇA E O SILÊNCIO QUE TRAI O BANQUETE ESPIRITUAL.
Quando o presidente ou dirigente de um Centro Espírita não é convidativo, não é motivacional e não se mantém inteirado dos acontecimentos promovidos por outras Casas, algo essencial já se rompeu. Rompeu-se o vínculo fraterno que sustenta o movimento. Rompeu-se a noção de corpo espiritual em trabalho conjunto. Rompeu-se, sobretudo, o entendimento de que o Espiritismo não se constrói no isolamento institucional, mas na comunhão de esforços em torno do Cristo.
Centros Espíritas não são ilhas. São células vivas de um mesmo organismo moral. Quando dirigentes ignoram o demonstram querer só para si, como se fossem imprescindíveis encontros, seminários, jornadas e iniciativas de outras Casas, onde antigos e novos irmãos se reencontram para laborar em comum, eles empobrecem a própria instituição que julgam proteger. Allan Kardec já advertia que o Espiritismo progride pela união dos seus adeptos e pela troca constante de experiências, jamais pela autossuficiência orgulhosa ou pelo fechamento disfarçado de prudência.
Há dirigentes que chegam atrasados para às atividades marcadas entre eles, saem apressados ao final e deixam aos demais irmãos a responsabilidade pelos momentos derradeiros da tarefa. Essa pressa não é apenas física. É espiritual. Revela distanciamento do ideal, cansaço moral e, em muitos casos, indiferença silenciosa. Pouco fazem pelo Centro que dirigem e menos ainda fazem pelos locais aonde afirmam ir em nome de Jesus. O nome do Cristo, porém, não legitima a negligência nem absolve a omissão.
Léon Denis ensinou que servir à causa espírita exige presença integral. Corpo, mente e consciência. Quem lidera sem participar ou isulflar o bom ideal plenamente não conduz. Apenas ocupa espaço. A liderança espírita não se mede pelo cargo, mas pela capacidade de inspirar, reunir, incentivar e caminhar junto. Onde falta esse espírito, a Casa esfria, os trabalhadores se dispersam e o ideal se dilui.
O verdadeiro ideal espírita ensina que muitos que possuem pouco podem, com esse pouco, realizar algo de imenso valor moral junto aos que, naquele momento, possuem mais recursos, mais tempo ou mais condições. O Cristo nunca exigiu abundância material para servir. Exigiu disponibilidade íntima. Contudo, o que se observa é o oposto. Espera-se que alguns se sacrifiquem em excesso, enquanto outros se-eximem sob o discurso de compromissos pessoais ou espirituais.
No Espiritismo não existem mártires fabricados. Ninguém é chamado a ir a pé, de bicicleta ou correndo atrás de um ônibus para provar fidelidade doutrinária. Esse tipo de sacrifício teatral não pertence à lógica espírita. Emmanuel foi claro ao afirmar que o sacrifício verdadeiro é silencioso, lúcido e organizado. O improviso constante, a falta de planejamento e o apelo ao heroísmo vazio apenas mascaram a ausência de logística e de responsabilidade institucional.
Falta logística. Falta preparo prévio. Falta organização que anteceda aquilo que aprendemos a chamar de Banquete Espiritual. Um banquete não se improvisa. Exige cuidado, divisão justa de tarefas, atenção aos convidados e, sobretudo, respeito pelo alimento que será servido. Quando poucos assumem tudo, enquanto outros apenas consomem, instala-se uma deformação grave do ideal.
Aqui surge a imagem incômoda do glutão à mesa. Aquele que se serve em excesso da visibilidade, da palavra, do prestígio e do reconhecimento, mas contribui pouco com o trabalho real. Esses, muitas vezes, se autodenominam palestrantes. Porém, jamais compreenderam que, no Espiritismo, não há palestrantes no sentido comum. Há expositores.
Raul Teixeira esclarece que o expositor espírita não fala em nome próprio. Ele se apaga para que a mensagem apareça. Ele estuda, vive e se disciplina antes de subir à tribuna. Não busca aplauso. Busca fidelidade ao conteúdo. O expositor não é artista da palavra, mas servidor da verdade. Quando alguém fala sem compromisso com o estudo, com a vivência moral e com o objetivo educativo da mensagem, ele não expõe o Espiritismo. Ele o exemplifica em sua oratória ou exposição doutrinária.
Joanna de Ângelis aprofunda essa análise ao demonstrar que a omissão das lideranças e a vaidade dos expositores produzem desencanto psicológico coletivo. O frequentador percebe quando a fala não corresponde à vida. Quando a Casa prega fraternidade, mas não promove encontros. Quando fala de união, mas ignora o movimento maior. Esse desencontro gera afastamento emocional e, por fim, evasão silenciosa.
O Cristo não precisa de oradores eloquentes. Precisa de consciências responsáveis. Não precisa de dirigentes ausentes, mas presentes na cobrança ante outros.Precisa de servidores presentes. Não precisa de discursos inflamados. Precisa de exemplos organizados.
A presidência espírita não é honra. É encargo. A tribuna espírita não é palco. É altar de serviço humilde recebendo por isso o beneplácito da suave luz da própria mensagem qual se tornara em momento alto-falante vivo dos imortais. E o Banquete Espiritual não é consumo egoísta. É partilha justa do pão da verdade.
Quando a liderança compreender isso, o movimento deixará de perder irmãos cansados e voltará a reunir trabalhadores conscientes, pois somente onde há compromisso real com o Cristo o Espiritismo permanece vivo, digno e transformador.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
