A Transparência da Alma Há momentos em... Roberto Ikeda
A Transparência da Alma
Há momentos em que a vida, com sua delicada brutalidade, nos oferece revelações que não pedimos, mas que precisamos. Uma palavra fora de lugar, um gesto não intencionado, um áudio deixado ligado — e então, como num rasgo súbito na cortina da convivência, vemos o que estava oculto: a ausência de verdade onde pensávamos haver afeto.
A amizade, esse pacto silencioso entre almas, não se sustenta na frequência dos encontros nem na doçura das palavras. Ela vive — ou morre — na integridade dos gestos, na coerência entre o que se diz e o que se faz quando ninguém está olhando. A decepção, por mais amarga, é uma espécie de claridade. Ela não destrói: revela. E o que revela, liberta.
Nietzsche dizia que “não é a falta de amor, mas a falta de amizade que torna os casamentos infelizes”. Podemos estender essa ideia a todas as relações humanas: é a ausência de autenticidade que corrompe os vínculos, que transforma o que era para ser abrigo em ameaça. Quando alguém nos mostra, mesmo sem querer, o que realmente habita seu coração, temos diante de nós uma oportunidade rara — a de escolher com mais sabedoria quem merece permanecer em nossa travessia.
Escrever sobre isso é mais do que desabafar: é eternizar o aprendizado. É transformar dor em linguagem, e linguagem em ponte para outros que também caminham feridos, mas desejam curar. A escrita, quando nasce da verdade, é sempre um ato de generosidade.
Que cada leitor que aqui chega encontre não apenas palavras, mas espelhos. Que se reconheça, se questione, se fortaleça. Porque a vida é breve, e o coração, sagrado. Que sejamos fiéis a ele — mesmo quando o mundo não for.
"A amizade verdadeira é como o silêncio da noite: não precisa provar sua existência, apenas permanece, fiel, mesmo quando todos os sons se vão."
Autor: Roberto Ikeda
