Geometria sagrada Antes da contagem,... Amanda Suita

Geometria sagrada


Antes da contagem,
antes do número aprender a se chamar número,
o universo já resolvia equações com luz.


A matemática não foi inventada -
foi lembrada.


Ela dormia nas conchas,
nos favos de mel,
no ritmo secreto das folhas
que nunca se sobrepõem por engano.


π sussurra o infinito
toda vez que um círculo se fecha
sem jamais se concluir.
A proporção dourada escorre
pelas espirais do girassol,
pelo exoesqueleto do náutilo,
pelas galáxias que giram
como se soubessem dançar.


A vida escolheu a repetição elegante.
Células se dividem obedecendo padrões,
ossos se arqueiam segundo cálculos silenciosos,
artérias desenham mapas
que imitam rios vistos do céu.


O torus respira em tudo:
no campo do coração,
no magnetismo da Terra,
no jeito que o ar entra e sai
sem nunca se perder.
Fluxo contínuo.
Energia que retorna a si mesma.


Na árvore da vida,
cada esfera é um estado de consciência,
cada caminho, uma travessia possível.
Não há cima nem baixo -
há experiência.


Estrelas nascem segundo fórmulas antigas,
colapsam seguindo simetrias precisas,
e mesmo na explosão
obedecem à beleza.


Nada cresce ao acaso.
Nada se organiza sem sentido.


O que chamamos de natureza
é apenas geometria em estado selvagem.
O que chamamos de ciência
é o esforço humano para decifrar o sagrado
sem precisar ajoelhar.


E nós, feitos de água, carbono e pulso,
somos equações emocionais,
fractais conscientes,
padrões que sentem saudade da origem.


Cada pensamento altera a forma.
Cada escolha redesenha a malha.


Existir é participar do cálculo divino
não para resolvê-lo,
mas para habitá-lo.


Porque no fundo,
o universo não quer ser explicado.


Quer ser reconhecido
no desenho de tudo.