O DESEJO DE SUMIR. Autor: Marcelo... MARCELO CAETANO MONTEIRO

O DESEJO DE SUMIR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
Livro 57.

APRESENTAÇÃO.

A Gravidade da Existência e o Voo Impossível:
O Desejo de Sumir como Anseio de Leveza.
Há momentos em que a vida não pesa apenas nos ombros, como o mítico globo de Atlas; ela pesa na alma. Nesses instantes de exaustão profunda, surge um pensamento, às vezes fugaz, às vezes persistente: "E se eu simplesmente sumisse?".

É crucial, antes de tudo, fazer uma distinção vital. Na maioria das vezes, esse desejo de sumir não é um desejo de morte. Não é um anseio pelo fim da consciência ou pela violência do não-ser. É algo mais sutil, mais poético e, paradoxalmente, mais ligado à preservação da vida: é o desejo de uma pausa absoluta. É o anseio desesperado de largar, por um momento que seja, o fardo insustentável de ser alguém.

A Mochila Invisível.

Vivemos sob a gravidade constante das demandas. Carregamos uma mochila invisível cheia de expectativas as nossas e as dos outros. Temos que ser produtivos, temos que ser felizes, temos que responder mensagens, temos que ter opinião, temos que pagar contas, temos que manter a "máquina do eu" funcionando ininterruptamente.

Essa manutenção da nossa própria persona é exaustiva. O esforço cognitivo e emocional para sustentar quem somos, dia após dia, gera um atrito constante com o mundo. O desejo de sumir nasce desse atrito. É o desejo de parar de lutar contra a gravidade existencial.

A Fantasia da Evaporação.

Quando ansiamos por sumir, a fantasia raramente é dramática. Ela é atmosférica. Queremos nos tornar névoa, evaporar no ar, diluir-nos na chuva. Queremos a propriedade daquilo que não tem peso.

O desejo de leveza é o desejo de não oferecer resistência. É a vontade de não precisar tomar mais nenhuma decisão, de não ser observado, julgado ou solicitado. É o sonho de um silêncio que não é apenas a ausência de som, mas a ausência de ruído mental e pressão externa.

É como se quiséssemos entrar em um "modo avião" existencial. Desconectar não apenas das redes, mas da rede da realidade que nos exige performance constante. Queremos ser esquecidos por um tempo, não por desamor, mas para que possamos descansar da tarefa de sermos lembrados.

O Peso da Conectividade Moderna.

Este anseio ancestral ganhou novas camadas na era digital. Nunca fomos tão "visíveis" e tão solicitados. A leveza tornou-se um artigo de luxo num mundo que nos bombardeia com informações e exige nossa presença 24 horas por dia, 7 dias por semana. O desejo de sumir hoje é também uma reação alérgica à hiperconectividade; é uma tentativa de recuperar um espaço privado e sagrado que foi invadido pelo ruído do mundo.

Sumir para se Encontrar?

Talvez, no fundo, o desejo de sumir esconda um paradoxo: queremos desaparecer do mundo para finalmente aparecermos para nós mesmos. Quando a poeira das obrigações baixa e o palco se apaga, o que resta?

Ansiamos pela leveza porque sentimos que perdemos o contato com a nossa essência mais simples, aquela que existia antes de todas as construções sociais e responsabilidades adultas. Queremos a leveza da criança que brinca sem consciência do tempo, ou a leveza do monge que esvaziou a mente.

Negociando com a Gravidade.

Como não podemos simplesmente evaporar somos seres de carne, osso e vínculos, a cura para esse anseio não está no desaparecimento literal, mas na busca por "bolsões de leveza" dentro da própria vida pesada.

Precisamos aprender a arte de "sumir um pouquinho" todos os dias. Seja num livro, numa caminhada sem celular, na meditação ou no simples ato de dizer "não" a uma nova demanda. O desejo de sumir é um sintoma vital; é a nossa psique nos alertando que a carga está excessiva e que precisamos desesperadamente soltar algum lastro para que o balão da nossa existência possa voltar a subir, mesmo que apenas alguns metros acima do chão.

É o reconhecimento de que a leveza não é a ausência de problemas, mas a capacidade de, ocasionalmente, não se deixar definir por eles.

O ser humano deseja às vezes sumir porque a consciência, quando sobrecarregada pelo peso do mundo, busca repouso na ideia de simplicidade. Não se trata de aniquilação, mas de alívio. É o cansaço da alma diante das exigências sociais, das expectativas alheias e do ruído incessante da vida moderna, tão distante do ritmo antigo no qual o existir era mais contido e inteligível.
Esse desejo nasce quando o espírito percebe que a felicidade verdadeira não se encontra no acúmulo, mas na subtração. Subtrair pressões. Subtrair máscaras. Subtrair conflitos inúteis. Sumir, nesse sentido, é regressar simbolicamente a um estado interior de silêncio, onde a leveza não é ausência de vida, mas presença de sentido.
Há também um componente metafísico. O ser pressente que sua essência não é pesada como o corpo nem ruidosa como o mundo. Ele intui uma condição mais sutil, mais serena, anterior às dores aprendidas e às angústias cultivadas. O anseio por felicidade surge então como memória difusa de um estado mais puro, em que existir era simplesmente ser.
Quando a dor se intensifica, a mente traduz esse anseio como vontade de desaparecer. Contudo, o impulso profundo não é fugir da vida, mas libertar-se daquilo que a deformou. O desejo de leveza é um chamado à reconciliação interior, à retomada da dignidade da própria existência, tal como sempre foi concebida pelos espíritos que souberam viver com sobriedade, disciplina e sentido.

EXEMPLOS DE LEVEZA COMO RECONCILIAÇÃO INTERIOR.
O pequeno príncipe é um exemplo fictício claro e sereno desse chamado à reconciliação interior. Ele não foge do mundo por desprezo, mas porque percebe que os adultos se afastaram do essencial. Sua leveza não é ingenuidade, é lucidez. Ao cuidar da rosa, ao limpar os vulcões, ao viajar entre pequenos astros, ele reafirma a dignidade da existência por meio da responsabilidade silenciosa e do afeto disciplinado. Viver com sentido, para ele, é viver sem excesso.
Alice, por sua vez, atravessa o espelho da realidade comum e entra em um mundo onde as regras são estranhas, mas reveladoras. Sua experiência não é escapismo infantil. É confronto simbólico com o absurdo da lógica adulta. Ao manter sua identidade em meio ao caos, Alice demonstra que a leveza não está em perder-se, mas em não permitir que o mundo desfigure aquilo que se é. Sua serenidade final não vem da fantasia, mas do retorno consciente a si mesma.
Entre exemplos reais, muitos homens e mulheres simples expressaram essa mesma dignidade sem jamais serem conhecidos. Um monge que se retira do barulho urbano para cultivar silêncio e trabalho manual não deseja desaparecer. Deseja ordenar a vida. Um professor antigo que recusa vaidades acadêmicas e dedica-se com rigor e sobriedade à formação moral de seus alunos pratica a leveza como dever ético. Um médico que atende com escuta paciente e moderação, mesmo em condições precárias, reafirma o valor do existir sem dramatização.
Há também figuras históricas que escolheram a sobriedade como forma de resistência interior. Pessoas que abriram mão de poder, luxo ou reconhecimento para viver de acordo com princípios firmes e claros. Nelas, a leveza não é fuga, mas maturidade. É o fruto de quem compreendeu que a dignidade da existência se sustenta mais no caráter do que nas circunstâncias.
A LEVEZA NA MATERNIDADE E NA CONDUÇÃO DA FAMÍLIA.
O exemplo de uma mãe ou de um dirigente de família enquadra-se nessa afirmação de modo ainda mais profundo, porque nele a leveza não é escolha estética nem exercício contemplativo. É responsabilidade diária. Diferentemente do pequeno príncipe ou de Alice, que se deslocam simbolicamente do mundo para compreendê-lo, a mãe e o dirigente de família permanecem no centro da realidade concreta, carregando o peso da vida sem permitir que ele se transforme em dureza moral.
A mãe que vive essa leveza não é aquela que se ausenta das dificuldades, mas a que não permite que elas a tornem amarga. Ela reconcilia-se interiormente quando aceita seus limites, quando compreende que não controla todos os destinos e ainda assim persevera no cuidado. Sua leveza manifesta-se no gesto simples, na palavra medida, na autoridade que não humilha e no afeto que não aprisiona. Ao organizar o cotidiano, ao sustentar vínculos, ao suportar silenciosamente o que não pode ser dito, ela reafirma a dignidade da existência sem dramatização e sem fuga.
O dirigente de família, por sua vez, encarna a leveza como sobriedade moral. Ele não governa pelo medo nem pelo excesso de rigor, mas pelo exemplo constante. Sua disciplina não é autoritarismo, é coerência. Ao sustentar valores, ao proteger sem sufocar, ao orientar sem esmagar a individualidade dos que lhe foram confiados, ele demonstra que a verdadeira força está na estabilidade interior. Sua serenidade não nasce da ausência de problemas, mas da fidelidade a princípios que não se alteram conforme as circunstâncias.
Trata-se de uma leveza conquistada no esforço, no renúncia ao egoísmo e na aceitação consciente do dever.
Nesse contexto, o desejo de leveza não é vontade de desaparecer, mas de não se perder. É o anseio de continuar inteiro mesmo sob o peso das responsabilidades, pois quando a família é conduzida com sobriedade, disciplina e sentido, o lar transforma-se em um espaço onde a existência recupera sua dignidade mais antiga e o ser aprende que é possível sustentar o mundo sem endurecer a alma.
Em todos esses exemplos, reais ou simbólicos, o desejo de leveza revela o mesmo núcleo. Não se trata de abandonar a vida, mas de habitá-la com verdade, reduzindo o supérfluo e preservando o essencial, pois é nessa fidelidade silenciosa que o ser reencontra sua inteireza e caminha com firmeza mesmo em tempos densos.
Quem compreende esse movimento não precisa sumir do mundo. Basta retirar do coração o que o mundo colocou em excesso, pois a verdadeira felicidade começa quando o ser reencontra, dentro de si, a antiga arte de existir com simplicidade e coragem.
Fique tranquilo, pois você não tem o controle de tudo. Nem do que está fora, nem mesmo do que se move dentro de si. Psicologicamente, essa constatação é decisiva, porque grande parte do sofrimento humano nasce da ilusão de controle absoluto. A mente tenta antecipar cenários, corrigir o passado, garantir o futuro e vigiar emoções que surgem espontaneamente. Quando falha, como sempre falha, instala-se a angústia.
Do ponto de vista psicológico, o excesso de controle está ligado à ansiedade. A pessoa acredita que, se pensar o suficiente, se analisar cada detalhe, se vigiar cada reação interna, evitará a dor. O efeito é o oposto. Quanto mais tenta dominar tudo, mais tensiona o sistema emocional, mais se afasta da serenidade e mais perde o contato com a realidade tal como ela é. Aceitar a limitação do controle não é fraqueza. É maturidade psíquica.
Há pensamentos que surgem sem convite. Emoções que aparecem sem causa clara. Lembranças que retornam sem aviso. Isso não indica desordem moral nem falha de caráter. Indica humanidade. A tranquilidade começa quando o indivíduo compreende que não precisa eliminar essas experiências internas, mas aprender a não se identificar totalmente com elas. Sentir não é o mesmo que ser. Pensar não é o mesmo que agir.
A solução psicológica não está em lutar contra tudo o que incomoda, mas em reduzir o excesso que foi acumulado ao longo do tempo. Expectativas irreais. Culpa desnecessária. Comparações constantes. Exigências que não nasceram da própria consciência, mas foram impostas pelo olhar social. Basta retirar do coração o que o mundo colocou em excesso. Esse gesto não é brusco. É gradual, consciente e silencioso.
Quando o ser aprende a simplificar a vida interior, ele recupera algo antigo e esquecido. A capacidade de existir sem vigilância permanente. De agir com responsabilidade, mas sem rigidez. De reconhecer limites sem se humilhar por eles. Psicologicamente, isso se chama integração. As partes internas deixam de lutar entre si e passam a coexistir com mais harmonia.
A verdadeira felicidade não surge da eliminação dos conflitos, mas da redução do supérfluo emocional. Ela começa quando o indivíduo reencontra, dentro de si, a antiga arte de existir com simplicidade e coragem. Simplicidade para aceitar o que não depende de sua vontade. Coragem para agir sobre o que depende. E serenidade para viver entre essas duas realidades sem se despedaçar por dentro.