O que precisava acontecer Há momentos... Saulo Santiago

O que precisava acontecer

Há momentos em que a vida pesa tanto que a única ideia possível é ir embora.
Não por covardia, mas por exaustão.
Quando a mente adoece, qualquer distância parece salvação.

Mudar de lugar, às vezes, é só uma tentativa de silenciar o que grita por dentro.
Acredita-se que a dor ficará para trás, esquecida no endereço antigo.
Mas a dor viaja leve.
Chega antes.

O novo cenário não traz descanso imediato.
O corpo se adapta, mas a alma demora.
O que antes era rotina vira improviso.
O que era casa vira abrigo temporário.

E então nasce o primeiro arrependimento silencioso:
o de ter deixado algo amado para trás.
Não por falta de amor,
mas por excesso de cansaço.

Algumas paixões não morrem.
Elas apenas ficam guardadas num lugar onde dói mexer.
Evitar lembranças vira defesa.
Fotos não vistas.
Histórias que continuam sem quem partiu.

Há sempre quem diga depois:
“Você deveria estar lá até hoje.”
Como se a vida fosse linha reta.
Como se existisse apenas uma versão possível do destino.

Mas há verdades que só quem atravessou entende:
se não tivesse sido naquele tempo,
teria sido em outro.
Se não fosse daquele jeito,
seria de outro.

Porque certas experiências não são escolhas isoladas.
São travessias inevitáveis.
A vida cobra não para punir,
mas para ensinar.

O arrependimento, então, muda de forma.
Deixa de ser culpa
e vira compreensão.

Entende-se que nem toda saída é fuga,
nem toda volta é fracasso.
Algumas decisões salvam a vida,
mesmo quando custam um sonho.

E quando o tempo passa
porque ele sempre passa
fica claro que não era sobre o lugar perdido,
mas sobre a pessoa que precisava ser reconstruída.

Por isso, se hoje algo dói ao lembrar,
não se condene.
Talvez aquilo não tenha sido erro.
Talvez tenha sido caminho.

Difícil.
Necessário.

E se houve aprendizado,
se ainda existe sensibilidade,
se o coração continua capaz de sentir e recomeçar,
então nada foi em vão.

A vida não exige perfeição.
Exige coragem para continuar.

E quem sobrevive à travessia
não volta menor
volta mais consciente
do valor de estar vivo
e presente
agora.