A insanidade raramente se anuncia. Ela... Graziele Freire de Oliveira

A insanidade raramente se anuncia.
Ela se infiltra.

Começa como um pensamento a mais,
uma lucidez excessiva,
uma sensibilidade fora de medida.

Há mentes que não quebram
apenas sustentam demais.
Elas funcionam, respondem,
cumprem horários,
enquanto por dentro tudo oscila.

A linha entre sanidade e desvio
não é um abismo.
É um fio.
E muitos caminham sobre ele
sem que ninguém perceba.

A insanidade não é caos explícito.
Às vezes é ordem demais.
Controle demais.
Consciência demais.

Ela se disfarça de normalidade,
aprende a conviver,
a sorrir no momento certo,
a calar no momento errado.

E talvez o mais perturbador
não seja perder a razão,
mas mantê-la
enquanto algo, silenciosamente,
se desloca por dentro.

Porque há estados mentais
que não pedem ajuda,
não fazem barulho,
apenas continuam.

E continuar,
nesse caso,
já é um sintoma.