O Ofício de Tornar-se Não é um lugar... Saulo Santiago

O Ofício de Tornar-se

Não é um lugar de homens prontos.


É um espaço de homens em construção.



Aqui, a riqueza não se mede pelo que se possui, mas pelo que se transforma.

É um processo silencioso, feito de auto lapidação, onde o caráter é trabalhado com paciência, disciplina e constância.



No início, aprende-se mais a ouvir do que a falar.

As palavras vêm depois. Antes delas, a escuta. Antes do discurso, a presença. Porque só compreende quem aprende a permanecer.



Com o tempo, passa-se a acompanhar.

Ainda não se está completo, nem se detém a totalidade das responsabilidades. O caminho exige preparo e maturação. Cada avanço acontece no tempo certo, nunca por impulso.



Ninguém chega acabado.

Chega em estado de construção, trazendo limites, contradições e aprendizados inacabados. Não se trata de superar outros, mas de buscar coerência consigo mesmo.



O tempo revela algo essencial:

quanto mais se aprende, mais se reconhece o quanto ainda há a aprender. Não se formam certezas rígidas, mas uma postura de constante aperfeiçoamento.



Não se trata de reprimir, mas de ordenar.

O que antes conduzia passa a ser conduzido.

E assim, o caminho segue adiante, com equilíbrio e consciência.



É um espaço humano e, portanto, imperfeito.

Ainda assim, sustenta-se por um compromisso fundamental: o de aprimorar o indivíduo antes de qualquer pretensão externa. O progresso começa no interior e se reflete, naturalmente, no entorno.



Estar ali exige coerência.

O que eleva encontra sustentação.

O que não se sustenta por si mesmo perde força.

Nada é imposto; tudo é assimilado pelo exemplo.



Não é fé dogmática, nem rito vazio.

É uma filosofia vivida, aplicada no caráter, nas escolhas e na forma de atravessar o mundo.

Não se professa crença cultiva-se postura.

Não se impõe fé constrói-se consciência.



A prática do bem não busca visibilidade.

O aprendizado não se impõe.

E o avanço não acontece por pressa, mas por constância.



Não se busca perfeição.

Busca-se disposição para o aprimoramento contínuo, com responsabilidade sobre os próprios atos e respeito ao caminho alheio.



No fim, compreende-se:

não é sobre pertencer a um lugar, mas sobre sustentar princípios, independentemente de onde se esteja.



Porque antes de ser, já se estava em processo.

Não por escolha ocasional, nem por mérito exibido,

mas por compromisso íntimo com uma forma reta de caminhar.