O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO.... MARCELO CAETANO MONTEIRO

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO.
CAPÍTULO 17 – SEDE PERFEITOS - INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS – I – O DEVER – item 7.
O dever.
7. O dever é a obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e, em seguida, para com os outros. O dever é a lei da vida. Com ele deparamos nas mais ínfimas particularidades, como nos atos mais elevados. Quero aqui falar apenas do dever moral e não do dever que as profissões impõem.

Na ordem dos sentimentos, o dever é muito difícil de cumprir-se, por se achar em antagonismo com as atrações do interesse e do coração. Não têm testemunhas as suas vitórias e não estão sujeitas à repressão suas derrotas. O dever íntimo do homem fica entregue ao seu livre-arbítrio. O aguilhão da consciência, guardião da probidade interior, o adverte e sustenta; mas, muitas vezes, mostra-se impotente diante dos sofismas da paixão. Fielmente observado, o dever do coração eleva o homem; como determiná-lo, porém, com exatidão? Onde começa ele? onde termina? O dever principia, para cada um de vós, exatamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranquilidade do vosso próximo; acaba no limite que não desejais ninguém transponha com relação a vós.

Deus criou todos os homens iguais para a dor. Pequenos ou grandes, ignorantes ou instruídos, sofrem todos pelas mesmas causas, a fim de que cada um julgue em sã consciência o mal que pode fazer. Com relação ao bem, infinitamente vário nas suas expressões, não é o mesmo o critério. A igualdade em face da dor é uma sublime providência de Deus, que quer que todos os seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal, alegando ignorância de seus efeitos.

O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta; é austero e brando; pronto a dobrar-se às mais diversas complicações, conserva-se inflexível diante das suas tentações. O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas mais do que a si mesmo. É a um tempo juiz e escravo em causa própria.

O dever é o mais belo laurel da razão; descende desta como de sua mãe o filho. O homem tem de amar o dever, não porque preserve de males a vida, males aos quais a humanidade não pode subtrair-se, mas porque confere à alma o vigor necessário ao seu desenvolvimento.

O dever cresce e irradia sob mais elevada forma, em cada um dos estágios superiores da humanidade. Jamais cessa a obrigação moral da criatura para com Deus. Tem esta de refletir as virtudes do Eterno, que não aceita esboços imperfeitos, porque quer que a beleza da sua obra resplandeça a seus próprios olhos.

Lázaro.
Paris, 1863.

DEVER E AMOR REAL. A DISCIPLINA DO CORAÇÃO E A GRANDEZA MORAL.
O texto apresentado em O Evangelho Segundo O Espiritismo, estabelece uma das formulações mais rigorosas e elevadas da ética espírita ao tratar do dever como eixo da vida moral e como critério objetivo do verdadeiro amor. Não se trata de um dever exterior, social ou profissional, mas do dever íntimo, silencioso e intransferível, aquele que se exerce na solidão da consciência e cuja única testemunha é o próprio espírito diante da lei divina. Essa concepção resgata uma visão clássica da moral, na qual o valor do ato não depende do aplauso, mas da retidão interior.
O dever, conforme exposto, nasce exatamente no ponto em que a liberdade individual ameaça a paz do outro. Essa definição é de extrema precisão ética. Ela afasta qualquer moral abstrata ou sentimental e estabelece um limite concreto para a ação humana. O dever termina onde começa a violação da dignidade alheia, do mesmo modo que ninguém deseja ter sua própria tranquilidade violada. Aqui se encontra um princípio de justiça moral que atravessa a tradição filosófica clássica e que, no Espiritismo, ganha fundamento espiritual e educativo.
É nesse ponto que se revela a distinção essencial entre amor real e amor aparente. O amor real não se confunde com atração, impulso afetivo ou satisfação do coração. Ele é disciplinado pelo dever. Amar verdadeiramente é não causar dano, é renunciar quando a própria vontade ameaça ferir, é conter-se quando o desejo ultrapassa o limite moral. O texto é explícito ao afirmar que o dever se encontra em antagonismo com as atrações do interesse e do coração. Essa tensão não nega o amor, mas o purifica. O amor que ignora o dever é apenas paixão. O amor que se submete ao dever torna-se virtude.
A igualdade em face da dor, apresentada como providência divina, aprofunda ainda mais essa compreensão. Todos sofrem para que ninguém alegue ignorância do mal que causa. A experiência da dor educa a consciência e torna o dever inteligível não como imposição externa, mas como consequência natural da vida moral. Assim, o amor real não é ingênuo nem permissivo. Ele nasce da compreensão profunda do sofrimento e da responsabilidade que cada espírito tem diante do outro.
Quando o texto afirma que o homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas mais do que a si mesmo, estabelece-se uma hierarquia moral clássica e profundamente cristã. O amor real é vertical e horizontal ao mesmo tempo. Ele se eleva a Deus pela obediência à lei e se manifesta no próximo pela renúncia do ego. Não há amor autêntico sem sacrifício interior, sem essa bravura da alma que enfrenta as angústias da luta moral.
O dever, descrito como laurel da razão e vigor da alma, não tem por finalidade proteger o homem das dores do mundo, pois estas são inerentes à condição humana. Sua finalidade é fortalecer o espírito, preparando-o para estágios mais elevados de consciência. Cada avanço moral amplia a responsabilidade, pois a obrigação da criatura para com Deus jamais cessa. Amar, nesse contexto, é refletir as virtudes divinas com fidelidade crescente, sem contentar-se com esboços imperfeitos.
À luz de O Evangelho Segundo o Espiritismo, essa reflexão conduz a uma conclusão inequívoca. O amor real não é o que promete felicidade imediata, mas o que preserva a dignidade, sustenta a consciência e respeita o limite sagrado do outro. O dever não sufoca o amor. Ele o salva da ilusão, da violência emocional e da injustiça disfarçada de afeto. Assim, quando o dever governa o coração, o amor deixa de ser impulso e torna-se obra moral consciente, erguendo o espírito acima de si mesmo e alinhando-o, com firmeza e humildade, à ordem eterna da vida.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .