⁠os ombros aprenderam a subir.... Juliana Umbelino

⁠os ombros aprenderam a subir. sozinhos. pra se defender de um impacto que não vem mais, mas continua esperado. e ninguém percebe. porque do lado de fora, parec... Frase de Juliana Umbelino.

⁠os ombros aprenderam a subir.
sozinhos.
pra se defender de um impacto que não vem mais,
mas continua esperado.

e ninguém percebe.
porque do lado de fora,
parece só postura.

•

os olhos seguem.
mas sem foco.
não procuram.
se movem por convenção.
há muito deixaram de querer encontrar.

•

a respiração encurta
em lugares muito cheios,
em mensagens muito longas,
em olhares que demoram mais que dois segundos.

não é fobia.
é memória corporal de quando tudo doía demais
pra ser dito em voz alta.

•

o toque —
não importa se vem por afeto ou distração —
é lido como ameaça.
o corpo se retrai antes de entender.

o corpo entende antes da razão.
sempre entendeu.

•

tem dias em que visto a roupa com cuidado
pra que ela esconda
onde dói mais.

e se encaixe nos ombros
como um escudo.
ninguém repara.
mas eu visto pra não ser tocada.

•

os pés não fazem barulho ao andar.
não por elegância.
mas porque aprendi que ser invisível
é, às vezes, mais seguro do que ser querida.

•

há partes minhas que desativaram.
não por escolha.
por sobrevivência.

ninguém nota.
mas eu parei de acenar.
parei de chamar.
parei de responder ao próprio nome
com entusiasmo.

•

isso não é trauma.
é adaptação.
o corpo se acostuma a não esperar retorno.
e começa a existir
com o mínimo necessário
pra não sumir.

•

mas o mais cruel é que, por fora,
parece força.
parece autonomia.
parece “nossa, como você lida bem com tudo isso”.

mal sabem
que foi o ombro subindo sozinho
que contou o resto da história.

—

Juliana Umbelino