PARADIGMAS DE UM NOVO TEMPO Os quintais... ZILMAR W. AIRES FILHO

PARADIGMAS DE UM NOVO TEMPO

Os quintais estão desprovidos de hortaliças, crias domésticas, galinhas e outras aves. Os herbicidas garantiram largas produções de frutos e vegetais, atropelando o mutualismo da cadeia alimentar e a sustentabilidade ambiental. Hormônios dobraram os lucros das carnes bovinas e dos galináceos, mas ampliaram o câncer humano. Supermercados e feiras livres inflacionaram os alimentos naturais indexando a esses o custo das estufas. Na seleção nutritiva, antes dos cereais híbridos, alguns preferiram o fast food, enquanto lanche rápido de poucos nutrientes; outros, não obstante, adotaram coquetéis de pílulas mágicas no afã da dieta rápida ou do balanceamento ideal no universo das proteínas e carboidratos.

Colibris e abelhas resistem heroicamente aos pesticidas humanos e a confiança das palmeiras e flores permanece nas praças e jardins, no afã da polinização, para engravidar frutos novos. O céu se escurece, mesmo sem eclipse, coberto pela combustão dos veículos, fumaças das usinas e fábricas. Lua e estrelas permanecem no céu. Elas acolhem o casto strip-tease das estações, para, em galanteios, romperem a escuridão, consolando os terráqueos, sob o prisma de suas constelações, com o recado de que há outros mundos no mundo. No chão, de onde o olhar se volta para o infinitivo, há, em torno de tudo, o lixo, filho do marketing intenso, que encarde o asfalto, entope esgotos, desgasta a imagem, desde que locuplete os caprichos da cultura de consumo, filha bastarda da globalização.

A educação superior é banalizada por meio de cursos à distância, que articulam superar o indispensável professor na didática e pedagogia humanas. O ensino médio é descredibilizado com regras de proibição de reprovar. Diplomas vendidos nas esquinas retratam os pseudobacharéis portadores de títulos acadêmicos e de pouco conhecimentos. Eles possuem graduações acadêmicas, livros nas prateleiras, mas, apesar do acervo, apresentam diálogos em águas rasas e restrita prática do conhecimento assimilado. Em decorrência disso, os investidores vão deixando o País por falta de mão de obra qualificada.

As músicas de qualidade perderam espaço, mas afiguram-se gratuitamente na internet para download ou nas playlists de preços acessíveis para os ouvidos de escutar. Noutro lado, os desarranjos sonoros que se ouve em bares, lugares, automóveis com decibéis estridentes de sons, são espólios de alguns agropecuaristas, donos da terra ou reis da soja, que alienaram as mídias divulgadoras em nome do vil metal, atropelando as canções de se ouvir.

A inversão de valores na sociedade achincalha as estruturas familiares, que se perdem com a ausência do lícito, ético e moral. Criminosos são realçados em suas práticas, ofuscando homens de bem. Nas relações humanas há muita pressa e estresse. Casamentos rápidos, divórcios céleres. Mansões suntuosas cheias de descartáveis e vazias de afeto.

As academias de fisiculturismo estão lotadas na busca do corpo ideal. Aparência é tudo no novo tempo! A busca frenética de muitos para serem exaltados nos primeiros lugares disso ou daquilo outro, num referencial de super-homem ou super-herói, contrapõe o espírito coletivo enquanto silogismo insuperável numa sociedade de diversidades. De outro lado, a jornada existencial segue garantida, mormente pelos simples e humildes, a exemplo dos lavradores, faxineiras, serventes, pedreiros, dentre outros. Na consciência, a sábia lição cristã ainda repercute o legado insuperável do sermão do monte: “bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus.”