Roberto Eduardo da Costa Macedo: OS MEUS VERSOS Os meus versos não são...

OS MEUS VERSOS Os meus versos não são meus! São um fio delgadinho, Mais fino que o fino linho, Da inteligência de Deus! Sou o espelho unicamente: Colho a imagem... Frase de Roberto Eduardo da Costa Macedo.

OS MEUS VERSOS

Os meus versos não são meus!
São um fio delgadinho,
Mais fino que o fino linho,
Da inteligência de Deus!

Sou o espelho unicamente:
Colho a imagem fulgurante
de estrela, de sol ardente,
Milhões de léguas distante.

Como, no búzio, cantando
Vem o mar, seu cavo grito
Anda talvez silabando
Em mim a voz do Infinito.

A frágil haste do trigo
Vibrou ao passar o vento;
Sucede o mesmo comigo.
Sacode-me o pensamento.

Ando, às vezes, distraído
E a ideia sorrateira
Vem-me achar de que maneira!...

E quando os meus versos traço
E os assino, como autor,
Reconheço que não passo
De receptor-transmissor.

Surge na várzea rasteira
Seara em verde lençol;
E cresce e fica altaneira
E quem a ergueu foi o Sol.

Até ao fundo covil
Do coração mais lapuz
Chega o hálito de Abril,
Vai uma réstia de luz.

O que somos, nesta vida,
Nós o devemos a Alguém
E passamos, de corrida,
Do além para o Além.

Viseu, Março 1948

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Inserida por COSTAMACEDO