Fiz de Mim o que Nao Soube
Eu estou muito velha para esse negócio de ficar
Tenho muita pele dos dias por viver
E aprendi: ficar é um verbo frouxo, que não cabe no meu corpo [não cabe].
Quero alguém que não venha por carência —
mas pela urgência do ser a dois.
Alguém que se sente do meu lado com firmeza,
como se ser parelha fosse natural, inevitável.
Alguém que apresente minha pele–história
à família, aos velhos amigos —
como quem expõe um gesto de honra.
Quero alguém que seja coautor da casa que habita meu sonho:
cada cômodo planejado no calor do desejo compartilhado,
cada canto respirando o nosso agora e o depois.
Quero alguém que entenda que construir família
é um verbo contínuo —
não um projeto estático,
mas o pulso insistente das certezas e dúvidas
que se renovam e endurecem e curam juntos.
Quero alguém que saiba
que votos não são palavras soltas ao vento,
mas carnavais de promessa,
ternuras assumidas em público,
como se cada “até que a morte nos separe”
fosse gravada na carne do tempo.
Estou velha demais, disse:
velha para brinquedos de amor novo,
para encontros sem peso,
para corações improvisados.
Quero alguém que queira morar dentro dos meus medos e descobertas,
que saiba que ficar é escolher
não fugir daquilo que assusta —
mas abraçar o medo como se fosse casa.
Eu já sou casa,
sou árvore, sou vento e sou cinza.
Quero alguém que me encontre inteira,
com minhas ranhuras e minha fome de pertencer —
pertencer a um “nós” mais vasto que o medo,
mais vasto que a própria solidão.
Sabe aquelas histórias que contam para as meninas? Como a do patinho feio que um dia se torna cisne? E a que as larvas um dia viram borboletas? Bom, eu, no fim da história, permaneci uma larva.
Você já viu todos esses filmes em que a heroína tem uma doença terminar, mas, apesar da quimioterapia e dos respiradores, ela é linda e namora o cara mais legal da escola? Bom, esse não é meu filme.
Os filhos crescem rápido. No início, eles ficam longe da beirada. Somos deuses para eles. Mas, de repente, "algo" acontece. No final das contas, somos apenas seus guardiões.
Foi então que prometi a mim mesma que nunca mais o deixaria. Que eu o protegeria. Que ele sempre estaria seguro comigo.
Será que nos realmente precisamos viver nossas vidas deste jeito continuo de tristeza e incerteza, será que essa é a graça da vida, será que nos só não podemos cair em algum lugar confortável e descansar, ou será que isso só ocorre realmente na morte.
Uma empresa empenhada em acordar nas frias madrugadas de inverno, dormir nos dias mais ensolarados do verão, trabalhar em todos os feriados, descansar nas segundas, procurar o que não perdeu e mesmo assim achar.
Fiz por mim.
Vi que tinha gente olhando,
Parei, olhei a volta,
Vi gente interessada.
Coloquei mais milho na fogueira,
Pois tinha gente de olho na palha assada.
