Fiz de Mim o que Nao Soube
Palavra não é enfeite. Palavra é semente. Algumas dormem anos. Outras esperam a pessoa virar quem aguenta viver o que disse.
Eu aguentei..
E o mundo, meio contrariado, obedeceu.
Cheguei num ponto em que a fala alheia
bate e não fica, passa e vagueia.
Olho, escuto, deixo ir,
não me moldo pra caber em ti.
Aprendi que silêncio também é proteção,
que nem toda guerra merece reação.
Se custa minha paz, não vale insistir.
Nada vale a pena se for pra me partir.
Família.
Não é quem divide sangue. É quem divide silêncio sem constrangimento.
Quem fica quando não sobra nada bonito pra oferecer.
Quem te chama à razão sem te diminuir.
Quem segura a barra quando você já largou tudo por dentro.
Família não é perfeita, é funcional.
Se dói o tempo todo, não é laço, é peso.
Se exige que você se apague, não é amor, é controle.
O resto é discurso pra enfeitar abandono.
Existe um tipo de descanso que não vem do sono,
vem de permitir pensamentos inúteis,
daqueles que não rendem conclusão,
não viram lição,
não servem pra nada além de existir por alguns segundos.
Lembrar de uma música antiga sem saber por quê.
Reparar no jeito que a luz bate na parede.
Pensar numa cena que nunca aconteceu.
É aí que o corpo afrouxa e a cabeça desarma.
Porque nem tudo precisa de sentido imediato.
Algumas coisas só precisam passar.
Pensar também é brincar.
E quem não brinca com a própria mente
acaba sendo dominado por ela.
Às vezes, clareza não vem do esforço.
Vem do intervalo.
Eu a vi hoje.
Ela não me viu.
Eu também não senti nada.
Nenhum aperto.
Nenhuma pressa no peito.
Só reconheci.
E guardei.
Como quem salva um arquivo
que já não precisa abrir.
