Faz de Conta Qu eu Acredito

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Nunca notou que mulheres como eu não são fáceis de se ter; são como flores difíceis de cultivar. Flores que você precisa sempre cuidar, mas que homens que gostam de praticidade não conseguem. Homens que gostam das coisas simples. Eu não sou simples, nunca fui. Mas sempre quis ser sua. Você, meu homem, é que não soube cuidar. E nessa de cuidar, vou cuidar de mim. De mim, do meu coração e dessa minha mania de amar demais, de querer demais, de esperar demais. Dessa minha mania tão boba de amar errado. Seja feliz.

Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.

Clarice Lispector
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Trecho da crônica Temas que morrem.

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Eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade.

Clarice Lispector

Nota: Trecho de entrevista com Júlio Lerner para a TV Cultura, em 1977.

Case-se comigo e eu nunca mais irei olhar para outro cavalo!

Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse.

Clarice Lispector
Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

Nota: Trecho do conto Perdoando Deus.

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E aí eu só olhei pra bem longe, muito além daquele Sol, e todo o meu passado se pôs junto com ele. E eu senti a alma clarear enquanto o dia escurecia.

Agora você pode me chamar de tudo, menos de fraca. Eu fui aguentando sozinha, sem demonstrar dores e não deixei um arranhão aparecer. Se isso é fraqueza, não quero descobrir o que é ser forte. Eu esperei até de manhãzinha, só para deixar uma lágrima escorrer e ficar cinco minutos chorando sozinha. Eu me odeio por cada minuto daquele maldito ano, que fiquei pensando em você. Me odeio por todas as vezes que larguei tudo só pra ficar alguns segundos ao seu lado. Eu me odeio mais ainda por ter sido tão otária a ponto de olhar pra trás e pensar em te trazer de volta. Mas acima de tudo, eu te odeio por todos os outros motivos que sabemos. Pelos segredos e pelas verdades, eu te odeio por ter mentido pra mim e por ter me esquecido enquanto eu ficava aqui te esperando. […] Sabe de uma coisa? Eu não ligo mais. Não corro atrás, nem mando milhões de mensagens pedindo para você voltar. Não te quero de volta. E isso foi em boa hora. Agora só vai embora e não volta mais. Nunca mais se possível. […] E só para terminar, espero que você sofra como eu sofri.

Escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma.

Clarice Lispector
Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

Nota: Trecho da crônica Pertencer.

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Em todas a vezes que eu neguei o que eu sentia, é porque não queria que você soubesse o quanto eu precisava de você aqui, todos os dias.

Para aqueles que querem muito me ver afundar, saibam que eu sei nadar.

Eu gostava de estar perto dele, porém ele me irritava de vez em quando, me tirava do sério e me deixava louca. Era bom ter o carinho dele, estar com ele, as brincadeiras dele eram as melhores e me arrancavam os melhores sorrisos.

Eu fico acordado até tarde. Não porque frequento festas, mas porque essa é a única hora do dia em que eu fico sozinho e posso ser eu mesmo.

Se você precisar de uma mão, conte comigo, eu tenho duas.

Eu não sei de que os sonhos são feitos ou de onde eles vêm, mas eu sei até onde eles podem nos levar e o que eles podem fazer por nós se colocarmos um pouco mais de fé.

Hoje eu quero me divertir, colocar as pernas pro ar e ser feliz.

Se eu Morrer

Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone, basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio.

Tudo tem que ser bem de leve para
eu não me assustar e não assustar os
que amo.
Pedem-me pouco, pedem-me quase nada.
O terrível é que eu tenho muito para dar
e tenho que engolir esse muito e ainda
por cima dizer com delicadeza: obrigada
por receberem de mim um pouquinho de mim.

Clarice Lispector
Varin, Claire. Línguas de fogo. São Paulo: Limiar, 2002.

Hoje eu só queria ouvir "eu te procurei pra saber se você está bem".

O que não me contam eu escuto atrás das portas.