Falhar
A Caneta, o Corpo e o Andar
Dizem que, quando a pessoa se aposenta, a caneta começa a falhar. Não quebra de uma vez, não. Primeiro falha o traço, depois a tinta rareia, até que um dia a caneta já não escreve mais ordens, assinaturas, decisões. E, curiosamente, quando a caneta para, some também a gaveta onde ela ficava guardada. Tudo perde lugar.
A aposentadoria, se não for cuidada, é isso: um esvaziamento silencioso. Não do tempo , porque tempo sobra , mas do sentido. A pessoa deixa de ser chamada, deixa de ser consultada, deixa de ser necessária. A caneta seca.
Isso é importante para a cognição, pois, quando a caneta se perde, perdem-se também os sentidos da vida vivida. É quando, junto com ela, a pessoa perde o corpo. Disso entendo um pouquinho como médico ortopedista . Perde o andar. Perde o gesto simples de se manter bípede, de ir e vir, de ocupar espaço no mundo. O movimento é o primeiro idioma da vida. Antes de falar, a gente se move. Antes de escrever, a gente anda.
A Organização Mundial da Saúde alerta: quem se aposenta e se desliga do mundo vai morrendo aos poucos. Não é uma morte súbita, é um afastamento progressivo , do convívio, do corpo, da conversa. Uma aposentadoria mal vivida não termina no trabalho; começa ali.
Por isso, quando a caneta seca, o essencial é não sentar para sempre. É manter-se bípede e funcionante. É estar junto de quem ainda tem caneta , não para depender, mas para compartilhar. A proximidade com quem escreve mantém a cognição viva. A convivência mantém o corpo em movimento. O diálogo mantém a pessoa inteira.
Talvez a sabedoria esteja em aceitar que a caneta pode mudar de mão, mas nunca desaparecer. Que escrever ordens pode virar contar histórias. Que assinar papéis pode virar assinar presenças. E que, enquanto houver passo, palavra e encontro, ninguém está realmente aposentado da vida.
Vencer não é somente uma questão de tentar e falhar, mas sim de quantas vezes você precisará realizar essas tentativas novamente!
Os amigos podem falhar, errar, esquecer ou desaparecer. Os amigos que falham, erram, esquecem ou desaparecem, nunca desiludem.
Porque os amigos podem tudo, exceto morrer!
Dobramento desse mundo fascinante é que o pai vai falhar com o filho, assim o filho vai falhar com o pai, isso é um ciclo que se repete sempre.
E se aquele travar?
E se alguém atravessar?
E se eu me distrair?
E se o travão falhar?
É o que mais penso quando estou no volante.
E você, o que pensa quando está no volante?
😔
Se for necessário você falhar cem vezes não é assustador, mas se você nunca for corajoso tentar mais de uma vez é terrível.
É melhor tentar algo e falhar do que não tentar nada e ter sucesso, o resultado pode ser o mesmo, mas você não será. Sempre crescemos mais com as derrotas do que com as vitórias.
O Abraço da Fé
Se, em minhas tentativas, eu falhar, não grite, não me critique, não me julgue. Apenas me abrace.
A vida não é feita apenas de prazer; ela é feita de equilíbrio.
Dou o que posso e recebo o que mereço.
Há momentos em que existem motivos para a dor — eu bem sei disso. O coração sofre, e então eu choro.
Mas fico triste e preocupada quando, em minha mente, tenho a certeza de que não há motivo algum, e mesmo assim o coração dói. Nesses momentos, o choro se torna mais intenso, mais profundo, quase desesperador.
É então que a fé me envolve e me abraça, amenizando um aperto em meu peito, cuja origem nem mesmo consigo compreender.
Por isso, vamos ativar a nossa fé. Que ela nos fortaleça quando as respostas não vierem, que nos sustente quando a dor parecer sem sentido e que nos lembre de que nunca estamos sozinhos.
Não tenho vergonha de falhar.
Prefiro as cicatrizes de quem se arriscou ao vazio de quem apenas assistiu à vida passar.
Minhas falhas são o rastro da minha coragem.
