Eu te Amo do Amanhecer ao Anoitecer
Às vezes eu olho para o mundo e sinto um peso difícil de explicar. Abro as notícias e encontro guerras. Entro nas redes sociais e encontro agressões. Vejo pessoas humilhando outras por diversão, animais sofrendo por crueldade, famílias destruídas por egoísmo, e me pergunto: em que momento nos afastamos tanto daquilo que poderíamos ser?
Ontem à noite aconteceu algo que me fez parar por alguns minutos e simplesmente observar.
Eu estava no banheiro quando meus olhos pousaram sobre o meu braço. Havia várias cicatrizes antigas ali. Algumas já tão apagadas pelo tempo que quase não podiam mais ser vistas. Fiquei olhando para elas em silêncio.
Então uma pergunta surgiu dentro de mim.
De quantas dessas violências eu ainda me lembro?
A resposta foi dolorosa.
De poucas.
Não porque não aconteceram. Não porque não foram graves. Mas porque foram tantas que a minha própria memória deixou algumas para trás.
O corpo, porém, não esqueceu.
As cicatrizes continuam lá.
Há algum tempo, meu esposo fazia uma massagem em minhas pernas quando começou a observar marcas espalhadas por ambos os lados. Eram muitas. Algumas pequenas. Outras mais visíveis. Ele perguntou sobre elas.
Então expliquei que aquelas marcas eram consequências das violências que sofri durante a infância e a adolescência.
Enquanto falava, percebi algo que nunca havia pensado profundamente antes.
Existem agressões que a memória não consegue catalogar individualmente.
Quando a violência se torna rotina, os episódios se misturam. Os dias se confundem. Os acontecimentos perdem suas datas.
Mas o corpo registra tudo.
Cada cicatriz é um documento silencioso de uma história que aconteceu.
Cada marca é uma testemunha que continua existindo mesmo quando a lembrança desaparece.
Achei curioso perceber que existem sofrimentos dos quais já não consigo me recordar claramente. Não consigo dizer qual foi o dia, qual foi o motivo ou qual foi a situação exata. Mas a cicatriz continua ali, como uma pequena assinatura do passado gravada na pele.
E foi nesse momento que compreendi algo importante.
Durante muitos anos, olhei para essas marcas como evidências da dor.
Hoje, começo a enxergá-las também como evidências da sobrevivência.
Porque cada cicatriz representa um dia que eu suportei.
Um dia que não me destruiu.
Um dia que eu atravessei.
As marcas contam uma história que o tempo tentou apagar, mas não conseguiu apagar completamente.
Elas contam a história de uma menina que viveu situações que nenhuma criança deveria viver.
Mas contam também a história de uma mulher que continuou caminhando.
Uma mulher que construiu sua própria liberdade.
Uma mulher que conseguiu proteger aqueles que amava.
Uma mulher que, apesar de tudo, não se tornou aquilo que tentaram transformá-la.
Hoje, quando olho para essas cicatrizes, não vejo apenas violência.
Vejo resistência.
Vejo a prova física de que sobrevivi a capítulos que poderiam ter me quebrado.
O passado deixou marcas em minha pele.
Mas não levou a minha capacidade de amar.
Não levou a minha fé.
Não levou a minha esperança.
E talvez seja essa a maior vitória de todas.
Porque algumas pessoas passaram anos tentando me ferir.
Mas nenhuma delas conseguiu apagar quem eu realmente sou.
As cicatrizes permanecem.
Mas eu também permaneci.
24 de junho de 2026 14:22
No dia 28 de julho de 2024, vivi uma situação que jamais vou esquecer.
Eu estava em casa, muito doente, sem imaginar que meu corpo estava entrando em colapso. O que mais tarde descobri era que eu estava com septicemia, uma infecção generalizada gravíssima, que já estava levando meus órgãos à falência.
Procurei atendimento na UPA de Barra do Corda, Maranhão. Mostrei os exames que tinha em mãos, expliquei o que estava sentindo e deixei claro que havia uma suspeita séria do meu quadro. Mesmo assim, recebi uma injeção e fui mandada de volta para casa. Disseram que o que eu tinha era ansiedade.
Mas não era ansiedade.
Enquanto eu tentava sobreviver, meu organismo estava travando uma batalha silenciosa contra uma infecção que avançava rapidamente.
Voltei para casa sem a cirurgia que precisava e sem a urgência que a situação exigia. Passei aquela noite em uma condição extremamente grave, sem saber se veria o dia seguinte.
Foi então que Deus usou outras pessoas para mudar o rumo da minha história.
No dia seguinte, meu sogro entrou em ação. Através de um contato que ele possuía, conseguiu mobilizar ajuda para que eu finalmente recebesse a atenção necessária. Graças a essa intervenção, fui encaminhada para uma cirurgia de emergência.
A cirurgia aconteceu a tempo.
Os médicos constataram a gravidade do meu estado. Eu estava com septicemia e falência de órgãos. Quando penso em tudo o que aconteceu, não consigo deixar de refletir sobre o quanto estive perto da morte naquele período.
O mais impressionante é que, algum tempo depois, retornei à mesma unidade de saúde. Durante o atendimento, me perguntaram quais eram minhas alergias. Respondi normalmente e informei tudo com clareza.
Ao receber a receita médica, resolvi ler antes de sair.
E ali estava prescrito justamente um medicamento ao qual eu havia informado ser alérgica.
Naquele instante, um filme passou pela minha cabeça.
Se eu não tivesse lido a receita, o que poderia ter acontecido?
Esses acontecimentos me ensinaram que ninguém deve abrir mão de acompanhar o próprio tratamento. Ler receitas, conferir exames, fazer perguntas e buscar esclarecimentos não é desconfiança. É cuidado com a própria vida.
Hoje, olhando para trás, sinto gratidão por estar viva. Gratidão a Deus, ao meu sogro e às pessoas que cruzaram o meu caminho naquele momento tão crítico. Porque a verdade é que, sem essa ajuda, talvez eu não tivesse a oportunidade de contar esta história.
E isso é algo que nunca esquecerei.
Tem um desejo meu que nunca te contei. Eu queria que a gente ficasse um minutinho só olhando um para o outro. Não porque está faltando amor, mas porque eu acho esse tipo de conexão muito bonito.
Hoje eu escolho olhar para mim com carinho.
Hoje eu escolho acreditar em mim.
Hoje eu escolho continuar.
E, aconteça o que acontecer, eu nunca mais vou me abandonar.
Eu tinha tanta inocência.
E, não havia um instante, em que momentos ruins, me faziam entristecer por completo.
