Eu sou tudo e nada

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Ela respira, muda, colide, rompe, amadurece. Nada em nós permanece imóvel depois que a vida nos atravessa com suas forças invisíveis.


"A vida é uma constante colisão transmutativa."

Mendigo, como vai sua vida espiritual?
Mendigo: Às vezes não tenho nada para comer.
Você doa 10% da comida que às vezes você recebe?

"O pensamento nada carrega, mas pode aliviar o que é pesado e tornar pesado o que é leve."

"A imaginação pode colorir um lugar onde não há tintas, mas não pode fazer nada onde não gostam de artes."

Respirar,


mesmo quando o mundo não perceber,
mesmo quando o tempo passar
e nada for mais igual,


quando ninguém mais for o mesmo...
ainda assim,
respirar.

o silêncio não resolve nada,
só deixa feridas abertas em quem ama de verdade.

A grande crueldade do silêncio é essa: Ele não mostra nada de quem partiu, mas deixa quem ficou com todas as perguntas e nenhuma resposta.

O mar é abrigo


O mar não pergunta nada.
Não exige explicações,
não pede promessas.
Eu chego cansada
e ele continua ali,
aberto, imenso,
sem se negar.
O mar acolhe até
quem chega quebrada,
com os pés feridos
e o peito cheio de nomes.
Não me diz para ficar,
não me diz para ir.
Ele apenas existe.
E às vezes isso basta:
um lugar que não foge,
que não se fecha,
que não me pede para ser outra.

Nada fica no pico o tempo todo.
Emoção não sustenta intensidade máxima por muito tempo. O corpo cansa, a mente cede. Isso não é fraqueza, é fisiologia.

A saudade veio sem pedir licença. Sentou. Ficou. Não explicou nada. Só ocupou espaço.

Toque de Abrigo


Foi um gesto pequeno,
quase nada pra quem olha de fora.
Uma mão que encosta,
sem pressa,
sem pedido.
O corpo estranhou primeiro.
Como quem abre uma janela
depois de muito tempo fechada
e esqueceu como o ar entra.
Ela quase dormiu.
Eu quase lembrei
que o toque também pode ser descanso,
não só alerta,
não só defesa.
Não houve promessa,
nem história,
nem nome pra dar ao momento.
Só presença.
E nesse silêncio compartilhado,
meu corpo entendeu antes de mim:
nem todo contato fere,
nem todo afeto cobra.
Às vezes,
tocar alguém
é só isso.
Um intervalo de paz
no meio da resistência.

Não é o lugar, nem quem passou,
o tempo mente... Nada levou.
Há algo em mim que insiste em ficar:
não acaba… aprende a morar.

A lua em minuto,
tão breve quanto um suspiro,
mudou o curso da noite.

No céu, nada parecia diferente,
mas dentro das pessoas
havia um estado alterado de convivência.

Palavras ficaram mais pesadas,
silêncios mais longos,
olhares mais distantes.

Talvez a lua não mova apenas marés.
Talvez ela toque
as correntes invisíveis da alma.

E por um minuto apenas,
o mundo inteiro esqueceu
como era conviver consigo mesmo.

Cidadão nada e ninguém

Demétrio Sena - Magé

Não é a favor nem contra seu velho pai, que sempre bateu em sua mãe, nem contra ou a favor de sua mãe, que apanha do seu pai. "Isso é da vida"; logo, ele é neutro. Jamais condenou a justiça, quando é injusta com os menos favorecidos, iguais a ele, mas também jamais condenou os menos favorecidos iguais a ele, por serem injustiçados; mesmo porque, até hoje não foi ele o injustiçado.

Da mesma forma não julga o patrão por explorar o trabalhador, como também não julga o trabalhador por ser explorado pelo patrão. Entende quem desmata e quem luta contra o desmatamento; elogia o policial honesto e o miliciano. Agrada os políticos de todos os lados, e nas eleições, vota em qualquer um, porque "todos são iguais". "Dança conforme a música" e não quer ficar mal com os bons nem com os maus.

Um malandro bobo que sempre se atrapalha e ajuda na vida boa dos piores malandros do poder. Para ele tudo bem que os poderosos trabalhem pela sua classe ou pelos eternos exploradores, porque "dá no mesmo", em sua opinião. Aliás, ele nem tem opinião formada; opina conforme a opinião mais "malandreada" ou escorregadia do momento, com quem converse.

"Não é esquerda nem direita". Nem frio nem quente. Bom nem mau. É de classe medíocre metida a média, que se julga rica. Beija uma mão aqui e come na outra acolá. É aquele típico cidadão chuchu, que absorve qualquer gosto, cheiro ou textura. Nas campanhas eleitorais, nunca declara de que lado está, porque um dos dois ganha, e... "como ele fica nessa?".
... ... ...

Respeite autorias. É lei

Você não vale nada pelo conhecimento que tem. Você vale pelo resultado que gera na sua vida e na vida do outro por meio desse conhecimento.

Relações mornas são como estômagos cheios de nada: pesam, mas não alimentam. É hora de abrir espaço para o que ferve.

Não me sinto culpado nem arrependido por nada que fiz ou faça; sinto-me apenas responsável pelas consequências dos meus atos, porém sempre consciente de cada um deles.

É mais fácil sentir arrependimento pelo que tive a oportunidade de fazer e não fiz, do que pelo que fiz. O que fiz está feito, já faz parte da minha história. O que não fiz, no entanto, não posso mais voltar atrás.

O problema da força
É que ela não serve de nada
Se não tiver
Determinação para usá-la

No final, não temos nada além de Deus.

o gabrieu e o parice


Ele começou a aparecer nos dias em que nada acontecia.


Não nos dias ruins. Nos dias iguais.


Porque o ruim ainda tem alguma coisa de vivo. O ruim machuca, irrita, obriga você a reagir. O problema é quando a vida fica confortável demais para doer e vazia demais para significar alguma coisa. Quando segunda-feira parece terça, terça parece quarta e, de repente, você percebe que passou meses repetindo a mesma conversa com pessoas diferentes, usando as mesmas roupas, fazendo as mesmas promessas e chegando em casa com a sensação de que esteve em algum lugar sem realmente ter ido.


Foi nesses dias que ele apareceu.


Primeiro como uma ideia.


Depois como uma voz.


Depois como uma presença.


Ele nunca dizia nada muito complicado. Só perguntava por que eu continuava aceitando uma vida que eu mesmo não escolheria se pudesse começar de novo.


Eu odiava quando ele fazia isso.


Porque ele não gritava.


Não precisava.


Algumas verdades entram baixo justamente porque sabem que você vai escutá-las.


Eu tentava ignorá-lo. Enchia os dias. Enchia a cabeça. Enchia o silêncio com qualquer coisa que tivesse luz suficiente para não me deixar enxergar o escuro. Funcionava durante algumas horas. Depois ele voltava.


Sempre voltava.


Às três da manhã, quando a cidade parecia abandonada e os prédios tinham aquela aparência de cadáveres gigantes dormindo em pé, eu sentia que ele estava sentado em algum lugar, esperando.


Não parecia alguém que queria me destruir.


Parecia alguém decepcionado porque eu estava desperdiçando uma vida que ele sabia que poderia ser muito maior.


Ele não tinha o meu medo.


Essa era a diferença.


Eu calculava as consequências.


Ele calculava o preço de não fazer nada.


Eu pensava no que poderiam falar.


Ele pensava no que eu falaria comigo mesmo daqui a dez anos.


Eu procurava segurança.


Ele procurava alguma coisa que ainda tivesse pulso.


E quanto mais eu tentava enterrá-lo, mais ele crescia.


Até que comecei a perceber uma coisa estranha: talvez ele não tivesse surgido para mudar a minha vida.


Talvez tivesse surgido porque eu tinha mudado demais para continuar vivendo a mesma.


A gente passa tanto tempo construindo uma versão aceitável de si mesmo que esquece de perguntar se ainda gosta da pessoa que está apresentando.


Você aprende a ser pontual.


Educado.


Responsável.


Previsível.


Aprende a escolher as palavras certas, vestir a roupa certa, responder a mensagem certa, sorrir na hora certa.


E quando percebe, já não está vivendo.


Está administrando uma imagem.


Foi aí que ele começou a ficar perigoso.


Porque ele não queria melhorar minha vida.


Queria arrancar a maquiagem dela.


Queria saber o que sobrava quando ninguém estava olhando.


E eu descobri que existia muita coisa.


Raiva.


Ambição.


Curiosidade.


Desejo de desaparecer por algumas horas e reaparecer diferente.


Vontade de fazer alguma coisa que não pudesse ser explicada em uma legenda bonita.


Talvez seja isso que as pessoas chamam de loucura quando não conseguem chamar de liberdade.


O meu alter ego não era um herói.


Também não era um vilão.


Era simplesmente a versão de mim que nunca aprendeu a pedir licença.


E talvez fosse por isso que eu precisasse tanto dele.


Porque existem momentos em que a pessoa que você construiu para sobreviver é justamente a pessoa que impede você de viver.


Então uma noite eu parei diante do espelho.


Não aconteceu nada cinematográfico.


Nenhuma lâmpada explodiu.


Nenhuma música começou.


Só eu, um banheiro frio e aquela cara que eu conhecia desde sempre.


Mas pela primeira vez eu não perguntei quem estava olhando de volta.


Perguntei quem tinha passado anos olhando através de mim.


E entendi.


Ele nunca esteve atrás do espelho.


Nunca esteve escondido em algum canto da minha cabeça.


Nunca foi outra pessoa.


Era tudo aquilo que eu fui abandonando pelo caminho para conseguir continuar sendo aceito.


Cada vontade engolida.


Cada palavra não dita.


Cada caminho que eu não tomei.


Cada versão minha que eu matei só porque alguém achou mais conveniente aquela outra.


Ele era o acúmulo.


A conta.


A cobrança.


A parte de mim que continuou viva enquanto eu fingia que tinha amadurecido.


Desde então, eu não tento mais expulsá-lo.


Deixo que ele sente comigo.


Deixo que ele me lembre que conforto demais também apodrece.


Que rotina pode ser uma droga administrada em pequenas doses.


Que existem pessoas que passam a vida inteira fugindo do caos sem perceber que o caos também é onde algumas coisas começam.


E que talvez a pior coisa que possa acontecer com alguém não seja perder o controle.


Talvez seja nunca ter tido coragem de segurá-lo.


Hoje, quando a cidade dorme e aquela versão de mim aparece no reflexo de alguma vitrine apagada, eu já não desvio o olhar.


Ele continua ali.


Com a mesma cara.


O mesmo silêncio.


A mesma pergunta.


Só que agora eu tenho uma resposta.


Não preciso virar outra pessoa.


Só preciso parar de desperdiçar a que ainda está tentando nascer.