Eu sou tudo e nada
BRINCAR DE SEGUIR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Confesso: sonhei tudo que a vida me permitiu, e quase nada chegou às minhas mãos. Mesmo assim valeu a pena, considerando a ilusão de cada dia que me deu mais um dia para sonhar de novo.
Sempre fui de fazer excursões no pensamento e nunca, em toda minha vida, fiz o que não foi de vontade livre. Dei ao vento a mistura dos meus tons, impus meus traços e me fiz assim: do meu eterno faz-de-conta. Sou resultado indiscutível do que sonhei, com realizações ou não.
Neste momento, já deixei a bagagem. Minhas mãos estão livres, minha cabeça idem, meu sentimento é de que a vida me deixou no parque do por enquanto, e se diverte na minha diversão. Meu caminho deixou de ser viagem, para se postergar na preguiça de medir o destino.
Mesmo sem ter chegado a lugar algum, sinto a trajetória cumprida. Minha história dilata o meu limite, sem compromisso de até quando. Só me resta brincar de prosseguir.
HUMANO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não posso tudo,
e o meu querer
não é bastante.
Nem quero tanto,
com tal poder,
com tanta força
ou tanta farsa.
Depois da estrada
termina o mundo,
e tudo é tudo...
só resta o nada.
DNA LITERÁRIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nestes tempos em que parece que tudo já foi dito e feito, é bom tomarmos muito cuidado com as nossas ideias originalmente "geniais"... e até que se prove o contrário, originais. Como temos as facilidades da web, não custa nada pesquisarmos para saber se alguém já não teve as mesmas ideias.
Bem recentemente aconteceu comigo algo meio frustrante: compus um texto inicialmente "genial", na minha secreta opinião, pela suposta originalidade na construção vertiginosa do mesmo. Feliz da vida, mas responsável, decidi pesquisar. Não demorei a me surpreender com a constatação de que o texto, embora fosse original na escrita, ou na redação, tinha o mesmo engenho de um poema já famoso. Não houve plágio nem cópia, mas a construção de minha escrita fazia lembrar o poema famoso do qual estava esquecido havia tempo... mas habitava o meu inconsciente.
Ler ambos os textos era como ouvir as músicas Esqueça, de Roberto Carlos, e Pense em mim, gravada pela dupla sertaneja Leandro e Leonardo. Ou assistir ao clássico mundial O mágico de Oz e à minissérie brasileira Hoje é dia de Maria. À eterna escolinha do Chaves e a também eterna escolinha do Professor Raimundo. Cada qual com seu texto e construção; recursos universais. Sem cópias ou plágios; porém, todos bebendo em fontes parecidas. Pondo carnes diferentes em esqueletos semelhantes.
Pela consciência de não ter copiado nem cometido plágio, publiquei o texto. No entanto, me senti mal. Desconfortável. Não demorei a retirar. Devo desconstruí-lo, tirar da forma em comum, reconstruí-lo e criar um esqueleto próprio para suas carnes. Toda alma reclama um corpo seu. Somente seu.
FELICIDADE ATÓXICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Faça tudo que o deixe completo e feliz,
pois as faltas se juntam num grande buraco,
nem um caco do todo pode se perder,
sob pena de perdas ou flancos em série...
Viva todas as vidas de sua matriz,
porque não abraçá-las é morte precoce,
tome posse do espaço que tem o tamanho
do seu sonho; seu senso do próprio direito...
Seja todo seu eu, nunca perca o sentido
e jamais se permita evaporar essência,
tenha brio e decência pra romper muralhas...
Só limite os projetos de felicidade
à verdade serena que o livre do caos,
mas não faça esse caos arrastar outra vida...
PASSARINHA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se até o pardal sabiá
e o coleiro cotovia tudo,
por que será que siriri
que não bem-te-vi
antes da pomba estourar,
que aquela doce rolinha
metida a santa andorinha
com os gaviões do lugar?
RENASCENÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando tudo pesava nos ombros cansados,
veio a luz emergente; a reflor no sertão;
de repente o passado se uniu aos passados,
revestiu minhas vistas de nova visão...
Era como nascer numa outra versão,
pra voar outra vez, montar sonhos alados,
mesmo assim ter os pés na firmeza do chão
e poder desatar os meus passos guardados...
Tanto não pra que o tempo me dissesse sim,
me salvasse do poço quando já bem fundo;
retirasse da alma os espinhos de abrolhos...
Quando a vida lhe deu de presente pra mim,
descobri a magia da vida e do mundo;
foi o fim do meu fim; renasci nos teus olhos...
O QUE SE DEVE SABER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenha pena dos que sabem ou julgam saber tudo... seja tolerante com quem chegou ao fim da linha, por não ter mais o que aprender.
EM FLOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sorria e brinque;
seu tempo espere,
que tudo aflora...
Não se adultize
nem se adultere
antes da hora...
MEIO SIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Seguiremos esta estrada.
Não te amo mais que tudo,
mas é melhor do que nada...
ETERNO AMOR ACABADO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Nosso amor teve o mesmo velho tudo
entre juras que ficam pelo meio,
feito carro sem freio enquanto vai
pelas vias desertas e sem curvas...
Todo amor desta vida estava em nós
e nos nós que tratamos como laços,
pelos passos do voo sem limite
nas promessas passadas de futuro...
Um amor que durou a vida inteira;
uma vida na caixa do seu tempo;
eira e beira que o tempo desmentiu...
Foi um não que se deixou converter
pelos ventos do sim e da paixão;
nosso amor foi pra sempre até o fim...
TUDO É ÁGUA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Água que lava
e abriga larva
que vira inseto...
Água que falta
e também medra.
Enche os riachos,
invade as casas
e fura pedra...
Água que afoga,
também afaga
e fertiliza...
Água pesada
que adia o jogo.
Supre a baía,
gera energia,
pois água é fogo.
CORAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Chega o tempo em que tudo aclama guerra,
temos mesmo que ter as nossas armas,
tudo emperra, se tranca e dificulta
os acessos; os voos; os sentidos...
Mundo e vida se unem contra nós,
nossos laços dão nós e nos comprimem,
nada expõe uma luz; apenas túnel;
sonhos pesam, quimera vira cruz...
mas o tempo - ele mesmo - traz saber,
faz caber a razão em nosso instinto
e desarma os intentos incontidos...
De repente voltamos do combate,
porque temos afeto; coração
que não mata; só bate pra viver...
Respeite autorias. Sempre cite o autor.
A FUGA DAS PALAVRAS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Dizia tudo na lata. Não tinha medo e limite. Jamais temeu os efeitos insondáveis de suas palavras diretas; contundentes. Muitas vezes, profundamente ofensivas... e sempre assim. Na lata. Sem eufemismos, metáforas nem rodeios, doesse a quem doesse.
No entanto, apesar de sua forma intempestiva de falar, ele tinha sempre um discurso mágico. Verdadeiro e profundo. Daqueles de fazer qualquer pessoa refletir e até mudar de postura. Era consistente no que dizia, não titubeava e jamais permitia que, fosse o que fosse, passasse em branco. Quando tinha notícias de que alguém enganara o cônjuge, abria o verbo; falava poucas; digo; muitas e boas. Ao saber que um pai batera no filho, que uma pessoa fora desonesta ou injusta com outra, ia lá. Golfava tudo. Como sempre, na lata. Sem medo, medida, meias palavras, contornos ou disfarces.
Mesmo assim, sempre foi alguém querido. Muito querido e respeitado, pois era o que dizia; o que seus discursos mostravam. Vivia cada palavra que deixava fluir. Era um cidadão honesto, verdadeiro, fiel, bom pai, trabalhador, cumpridor de seus deveres. Não havia, naquele homem, qualquer indício de superficialidade ou hipocrisia.
Mas um dia o caldo entornou. Ou as palavras entornaram. Cheio de compromissos a cumprir, e com muita pressa, o homem saiu sem ter feito com o mesmo zelo, o que sempre fazia depois de abrir o verbo sobre alguma postura inadequada: tampar hermeticamente uma grande lata, sem qualquer conteúdo notório nem palpável, que ele mantinha no sótão de sua bela e grande casa. Uma lata secreta, como era o lugar no qual nem mesmo sua esposa e os filhos entravam, e de cuja existência os parentes e amigos, então, nem sabiam. Muito menos da lata única. Sem nenhuma igual.
Foi assim que o inusitado aconteceu. Com brechas expostas, a lata foi liberando, um a um, todos os discursos e desabafos do cidadão inconformado com as mazelas do mundo. Com as injustiças e os desmandos do ser humano. Suas palavras foram tomando as ruas, invadindo ouvidos, mentes e corações, e fazendo pensar... sentir... se arrepender. Foi um dia grandioso, em que as pessoas consultaram a consciência e, comovidas, tomaram a decisão de mudar para melhor. Deixar de fazer o mal, cometer qualquer ato que pudesse prejudicar o próximo, e, por conseguinte ou extensão, o distante.
Já sabedor do seu descuido que resultou a fuga das manifestações de muitos anos, e, apavorado com o volume repentino, agressivo e tamanho de franquezas que, por sua culpa, tomaram o espaço daquela cidade, o bom homem voltou em casa, muito às pressas, e fugiu com a família. Não quis esperar pelas consequências do ocorrido que logo se tornaria histórico, não só ali, mas em todo o planeta.
Desnecessária, sua fuga. As consequências não poderiam ser melhores. Caso ficasse, o seu único arrependimento seria o de não ter dito muito antes, não na lata, mas na cara de cada cidadão, todos aqueles discursos maravilhosos, capazes de mudar tantas vidas.
AMORES ETC
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desisti de trocar o meu tudo por algo,
meus extremos por meios – caminhos ou termos,
ter carinhos enfermos pelo bom humor
com que dou este afeto sem cabresto e muro...
Aprendi a temer os temores de mim,
ficar longe do longe, calar pro silêncio,
dizer sim ao jamais que recheia o talvez
do sorriso velado, a palavra espremida...
Já não quero pairar no vazio de alguém
para quem tanto faz ou às vezes até
tem um quê de bem-vindo que logo evapora...
Quero caso de amor, amizade ou acaso
que não seja forçado, por sinais de aviso,
a ser tímido e raso como precaução...
AUTOAJUDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Como tudo o que é possível de fato só é de fato possível quando existe possibilidade, uma coisa é fato: nada será impossível, se dermos o melhor de nós pelo que o melhor de nós pode conseguir, contanto que não seja impossível.
No fundo, só quero dizer uma coisa com tudo isto que falo sem saber se com o que falo digo realmente alguma coisa: o ser humano tem o poder de fazer tudo, desde que seja tudo aquilo que o ser humano tenha o poder de fazer.
AMOR E PRAZER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Vem aqui, entra um pouco e deixa tudo
lá no mundo esquecido em seus conflitos,
deixa os gritos de guerra e de agonia
para quem subestima o que há de bom...
Desaprende a linguagem rebuscada;
fica leiga em gramática e ciências;
bem tapada em História do Brasil;
tira dez no prazer que nos aguarda...
Não há entre os de farda ou à paisana,
ou de verbo e de verba, os investidos,
o que valha o temor do que sentimos...
Entra um pouco e depois nos adentremos;
os extremos do amor nos arrebatam
da mentira de sermos cidadãos...
MERCADO VITAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenha tudo a seu tempo. Sempre na hora exata. Para tanto, seja muito criterioso na observação do tempo e no seu projeto pessoal. Na construção do sonho e do projeto. Tenha em mente que não se bebe uma vida em um trago intempestivo. Quem não edifica um passado não terá futuro, pois o tempo não é de se dar de presente.
Só herdamos do mundo as conquistas incontestes. A realização confiável surge quando caminhamos decididamente, mas com todas as etapas em dia, rumo ao fim desenhado no início. Isto só acontece ao passarmos nos testes de sonhar a prazo, sem aquele vício de crer que se vive num ato. Em um mergulho. Um salto no vácuo.
O que só se conclui com critério e processo, ninguém terá no atacado, mesmo que tente pagar à vista. Realizações sólidas têm acesso restrito a quem vai passo a passo, pois só se vive a varejo. Ao alcance da mão. Cada resposta do mundo é um trago adequado à verdade cabível para o momento. Viver é construir. Momento é matéria prima.
TUDO EM VÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Foram-se as caras.
Também as bocas...
personagens; papéis...
e segredos.
Foram-se os dedos...
o que será dos anéis?
SOCIEDADES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aquela turminha que tudo pode lá na escola, segundo as próprias leis, e decretou que nenhuma emenda lhes tirará o poder, está "pê" da vida com a outra turminha. No caso, a turminha de menor peso social; que não tem condições de se misturar; não tem nada para oferecer, e assim sendo, não merece respeito.
A grande questão é que a turminha que tudo pode aprontou uma feia com a que nada pode, que não gostou nem um pouco, e a que tudo pode não gostou de a que nada pode não ter gostado. Complicadinho esse negócio, mas é por aí. Os algozes estão com trombas maiores que suas caras, em retaliação à forma exacerbada com que as vítimas reagiram. Como punição, a turminha que nada pode ficará um longo tempo sem desfrutar do privilégio, a honra ou a bênção de brincar com a que tudo pode. Isso deve ser amargo, porque brincar, ou até poder ficar perto da turminha que tudo pode não é para qualquer um. Trata-se de algo realmente precioso.
Em resumo, a reação da vítima é o trunfo definitivo do algoz. A turminha que tudo pode julga que além de poder tudo, a reação anulou a ação cometida por ela que, além de certa como sempre, desta vez pode provar por "a" mais "bê", que foi vítima da vítima. Razão perfeita para todo mundo manter a tromba e mais uma vez não baixar a crista, mesmo porque, numa turminha que tudo pode, o que não se pode mesmo é não poder.
Ainda bem que não existem aqueles ventos lendários das crendices de minha infância. Ou eles poderiam deixar a turminha que tudo pode fisicamente parecida com o que suas expressões sugerem. Imaginem vocês, um bando de animais de tromba e crista.
- Relacionados
- Frases de quem sou eu para status que definem a sua versão
- Poemas que falam quem eu sou
- Poemas Quem Sou Eu
- Frases de saudade para dizer tudo o que o coração sente
- Quem sou eu: textos prontos para refletir sobre a sua essência
- Frases de feliz Ano Novo para começar 2026 com tudo
- Eu sou assim: frases que definem a minha essência
