Eu Queria Saber Coisas que Rima com Lais
Quando eu era criança, eu degustava a água, agora vou engolindo para matar a sede. Comer sem prestar a atenção no alimento é não se alimentar. Viver sem sentir o gosto da vida, não é viver.
Eu sou assim
Quando achamos que os pensamentos nos atrapalham, que tropeçamos no raciocínio e nas palavras, estamos enganados. Nós estamos muito além do pensamento. Nós somos o pulsar das galáxias, somos o fluxo interminável dos átomos, o choque das forças em movimento. E também a comunicação de mentes sem fim. A sombra dos astros no encontro entre a realidade e o nada.
Todos são eu. Eu os ouço vendo as nuvens que se estendem pelo céu. Eles sabem, eu sei. Posso compreendê-los enquanto adoram o infinito, posso sentir a sua música que é o saber da música que constrói a realidade. Não mais aqui o eu que não está, ele sempre estará. As fagulhas azuladas da extensão celeste se tingem de chumbo, eu vejo a hora do ocaso, ela fará tudo voltar ao começo. Lá onde está a fonte.
Sonhador
Os meus sonhos valem mais que qualquer coisa que eu tenha vivido. A imaginação cria um mundo mais completo do que aquele que eu nunca vou conhecer. A minha arte sou eu, vivo. A arte de me construir é maior do que se chama de realidade.
Combatente
A Maya quer me enganar. Por que permite que eu saiba que ela existe? Será mais um dos seus truques? Somos pequenos bonecos diante das ilusões. Para mim a realidade foi construir ilusões. Por isso eu me importo com o pote cheio de canetas e presto atenção em cada taco do parquê. Entre os objetos existe algo. Não é o ar. Existe uma ligação que faz com que brilhem na luz amarela. Eu posso tocá-los com os olhos, posso cheirar uma história. A medida em que eu vou escrevendo os meus órgãos internos se agitam, as vozes agridem os meus ouvidos, a sede repuxa os meus nervos. Alguém que morreu há algum tempo teima em aparecer. Sou eu que estou morto porque vivo de lembranças. E enquanto eu estou aqui teimo em perceber o mundo profundamente, dum jeito que cansa, me faz um soldado, do batalhão da mente, do exército dos insatisfeitos.
Nostálgico
Nesta manhã, eu encontrei uma bergamota bem doce e sumarenta
Arauto do outono, filha de uma árvore perdida na planície
Quem me dera voltar, e depois acordar no que já era
Fazendo disso a atualização da saudade
Passeio
Lá estava eu, entre os meus coleguinhas, pensando em como passá-los para trás. O que eu podia fazer com o que tinha era fingir que era muito inteligente. Isso não podia funcionar e não era muito inteligente. Mas continuei com a minha farsa, na qual só eu acreditava. A única maneira daquilo dar certo era estudar muito, dedicar a vida ao estudo, mas eu não era idiota o suficiente para fazer isso. Eu não estudava, apenas ouvia o que os mestres falavam. Depois me tornei um cético e um descrente. A ciência tinha argumentos fortes, mas dava para sentir a farsa pela constante e onipresente afirmação dos seus princípios. Eu não ia cair nessa. A ciência e a religião procuravam ovelhas crédulas para vender o seu produto. Em ambos os casos se serviam da ignorância para criar a sua mágica. Um rebanho indefeso para lideranças sedentas de poder. Isso me afastou de todo mundo. O isolamento ajudou a desenvolver a minha criatividade, pois eu acabei tendo só a mim para conversar. Nos momentos de desespero, eu me lamentava por ser um nada, e estava certo! Como nada, eu fui me esvaziando ainda mais e ao mesmo tempo me completando. E fui ficando tão diferente que deixei de ser humano. Na minha ignorância, eu achava que estava doente, quando eu não podia ter mais saúde. Assim, fui tentando me adaptar a um mundo de loucos. Mas não tinha vocação para pirado e fracassei redondamente. Os loucos veem o mundo, mas não enxergam a sua visão, portanto são cegos. Não podem ver que eles são o mundo e o mundo que enxergam são eles. Conversei muito com os médicos, mas também eram doentes, como padres querendo me reformar para que eu coubesse nos seus preconceitos. E ainda demorei para compreender que o médico sou eu. Os meus amiguinhos cresceram e se tornaram peças da engrenagem. Parece que lá atrás eu já tinha a intuição de que ser inteligente não dá certo.
Ao ouvir benevolentemente os meus pensamentos, eu crio um além homem, expandindo as fronteiras do possível.
O universo é astuto, nunca permite que eu repita o mesmo truque. Aprendi com ele que ele não pode repetir o seu embuste e que existem infinitos caminhos. Válido é o que escolhemos.
Saiba que eu, nessa vida passageira
Na qual somos pó, um simples grão de areia
Gravarei, em mim, a sua existência
Estando você aqui ou no céu, terei a sua essência
E para sempre eu pedirei a tua bênção
Livrai-me, Senhor, do militante fanático; já que do candidato salvador da pátria, livro-me eu.
Benê Morais
Eu temo pelas gerações futuras. Os nossos líderes não estão preparando líderes para o futuro; estão preparando robôs com mecanismos programados.
