Eu Amo meus Inimigos
Trago comigo delicadezas perversas e maldades santas...
Meus valores são construções que foram cravadas em meu coração...
De algumas escapo em outras me prendo...
NEGRAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
De alma negra
re(negro), imponho
a negritude
dos meus olhos;
da minha pele;
do meu sonho.
ô minha negra,
vem re(negrar)
a negração
do nosso amor;
do nosso humor;
da nossa raça.
Desce do muro,
fecha comigo,
sai da retranca;
ou eu te juro
que a coisa pode
ficar branca.
POEMA DE PANELA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ter amor com que teça os meus versos diários
e meus versos diários pra fazer amor,
bom humor pra chorar sem perder o sorriso
que pertence aos meus olhos, apesar da vida...
Igualmente um motor, combustível nos temas
dos quais faço poemas pra poder viver,
como quero aplicar meus poemas nas pedras
das colunas e o piso da casa em que moro...
Apesar da ilusão de qual sempre disponho
ao compor cada sonho sem cair do mundo,
pulo fundo pra fora do lugar-comum...
Cada dia revela que o chão é meu céu;
quero letras cremosas pra passar no pão;
canjiquinha; feijão; torresmo com poesia...
BANDEIRA DO BRASIL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Obrigado, Bandeira, por ter tremulado
aos meus olhos carentes de afeto e de letras,
ter me dado essa chave da porta pros livros
que devoro e que sirvo num ciclo constante...
Pelo dia em que pude colher tua ESTRELA
DA MANHÃ que mudou minha vista pro mundo,
numa caixa sem fundo que as traças roíam;
elas quase se fartam de seus madrigais...
Por meus versos ou plágios que fiz inocente,
mas que foram sementes dos originais
que mais tarde se abriram na minha lavoura...
Um acaso feliz me vestiu de magia
e da sua poesia me reconstruiu;
obrigado, Brasil, porque tive Bandeira...
RECOMPOSIÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Estas minhas emendas que rasgam de novo;
estes meus recomeços que já ficam velhos;
minhas voltas por cima cada vez mais vãs,
meus afãs engessados de mudar de vida...
Eis os passos cansados e os ombros caídos,
o presente que sempre morou no passado,
a certeza oscilante que jamais se apruma
e a nova pessoa sempre mais distante...
Um querer sem querer, uma força tão frágil
de vontade abalada, uma faca sem corte,
caminhada sem norte, apesar do meu alvo...
Há um eu que não eu na escuridão do ser,
que me cabe vencer pra recompor meu sonho;
refluir do meu caos; minha sombra; meu nada...
FÉRIAS EM MIM
Demétrio Sena
Volta e meia retomo este casulo
no qual volto a mexer nos meus segredos;
onde ovulo meus sonhos impossíveis
entre medos e algumas esperanças...
Neste fundo remexo em velhos dias,
fantasias guardadas na poeira,
em amores pendentes e marcados
destas nódoas eternas de presente...
Tiro férias, viajo para mim,
vou ao fim, ao começo de um afeto,
aos encantos erguidos e tombados...
Quando estou aqui dentro não me chamem;
apesar deste corpo, sou etéreo;
sou mistério fechado pra balanço...
VETADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desde sempre me guardo e preciso lhe dar
meus acúmulos, fardos, verdades contidas,
minhas vidas atadas num feixe de sonhos
costurados na sombra do afeto escondido...
Nunca pude acender uma luz ostensiva
que revele os sentidos, lance os sentimentos,
tome os ventos pro nada e não possa voltar
da corrida sem freio e da queda provável...
Guardo gestos, palavras, olhares e graus
deste fogo abafado em esperanças gastas
entre pastas de arquivos que temem morrer...
Não me tenho pra mim, jamais fui do meu eu,
porque sempre fui seu, mas me calo tão fundo
que meu mundo me veta para o seu olhar...
CADA VEZ QUE TE VEJO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Fico assim só de olhar nos teus olhos nos meus;
dou adeus e te levo, e permaneço assim,
por um curto sem fim que só depois me chama
e derrama o vazio de já não te ver...
Quando bebo em teu rosto esse dizer profundo
que me cala e consente ficar tonto e bobo,
eu me roubo pra ti; nem preciso de mim;
vou ao fim do meu mundo e colho céus ocultos...
É assim que me flagro desde que te achei,
desde quando não sei, porque lá me perdi
sob tuas presenças e muitos adeuses...
Ao saíres da linha do meu horizonte,
cada vez que te afastas ou cumpro essa pena,
fico assim, viro ponte suspensa no caos...
ASSIM, NÃO ASSADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem quiser educar meus instintos de harpia;
dar à luz do meu dia seu clima de sótão;
modelar minhas asas para voos curtos,
cairá de meus surtos em plena vertigem...
Se tiver ilusão de me amansar aos poucos,
pôr coleira e corrente no meu coração,
saberá que meus sonhos são anti-armadilhas
e são anti-estratégias as minhas verdades...
Não invente uma forma de virar o jogo,
não há fôrma que amolde a natureza em mim,
sou assim, não assado por fogo de ofício...
Caso queira esse caso de acaso e soltura,
cuja lei da procura não distorce oferta,
venha simples e aberta pra fechar comigo...
ARQUIVO MORTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Dou ao tempo a coragem dos meus passos,
porque tenho a missão de ser quem sou,
crio laços e driblo a solidão;
não me dou ao vazio que se oferta...
Quero apenas o quanto está pra mim;
vou pro mundo que vem ao meu olhar,
lá no fim se desenha o que já é
neste mar de verdades pré-moldadas...
As receitas estão no arquivo morto,
há um porto em que todas as sucatas
contam suas histórias pra ninguém...
Forjo a rota, o destino, crio a fé
sem correr, pois a vida me acomoda;
tenho muita preguiça de morrer...
RECONSTRUÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Reatar meus extremos e voltar pra mim,
dar começo ao meu fim pra caminhar de novo,
pra caber no futuro a partir do presente
que desmente o passado ao resgatar meus grãos...
Exalar do morrer que não se quis assim
e da minha omelete refazer um ovo,
desenhar a minh´alma na folha da mente
para o corpo caber entre as linhas das mãos...
Vou cair de mansinho dos voos que dei,
transgredir essa lei de só seguir além,
ser liberto por crime de sã consciência...
Consertar uma história que não tem conserto,
pôr enxerto no tronco daquela verdade
que me pede mudança e preciso atender
PRETEXTO PARA SER MINHA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nos meus braços de puro enforcamento,
beba o gosto salobro destes lábios;
leia o peso que levo sobre os passos,
entre os traços profundos do meu rosto...
Tenho jeito, é só ter o seu carinho,
ser amado apesar da minha carga,
sou espinho que pode vingar flor
onde amarga o pior do que se é...
O que peço é que veja um lado bom
ou invente o seu dom de me aceitar,
como simples pretexto pra ser minha...
Filosofe que sou um ser humano,
há um plano maior pras nossas vidas
numa vida sem tempo pra temores...
JANELA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se me dou aos teus olhos deste jeito;
se meus olhos te caçam, como vês,
não é caso de ausência do respeito
nem de ser dominado pela tez...
Tenho plena ciência dessas leis
que me vetam de todo e qualquer pleito,
conto sempre até quatro, cinco, seis,
depois levo meu sonho para o leito...
Eu te quero faz tempo; desde o dia
em que vi teu olhar que só me via
como alguém que pros olhos pouco importa...
Sei do quanto é só minha esta novela,
como sei te querer pela janela;
nunca hei de forçar a tua porta...
RASGANDO OS VÉUS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje perdes meus olhos; minhas atenções;
minhas vãs incursões em tua solidão;
meu discreto interesse pelo teu estado
que virou lentamente minha capital...
Nunca mais os momentos do silêncio dito
aos ouvidos calados de qualquer espera,
mas no clima infinito que nos perfumava;
primavera inerente a qualquer estação...
Perdes toda intenção do meu querer secreto,
meu afeto contido num desejo em véus,
para não arriscar o que julguei que tive...
Retiraste até mesmo as expressões do gosto
que já li em teu rosto por sutil resposta;
sou alguém que não gosta de gostar sozinho...
AFETOGRAFIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem compõe os meus afetos mais fundos e sinceros, não se honre com o meu possível gradativo ou repentino recato. Nem o bendiga ou elogie. Tenha como distância ou proximidade o meu nível de cerimônia; o tom solene de minha voz; a formalidade no gesto e nos olhos. Quanto maior minha deferência ou correção postural no tratamento e a lida, menor é o carinho. Mais distante o calor humano.
Meu respeito proporcional ao que sinto por você mora justamente no despojamento; na proximidade. Nas atitudes desarmadas, permissionárias e livres. Nos descuidos de postura e de como possa me apresentar. Minha confiança é gradualmente desinibida. É uma flor que se abre na medida exata da cumplicidade... o gráfico exterior do afeto fundo ou raso que tenho por meus afetos.
AMIZADE PLATÔNICA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Foram anos de olhares tão só meus,
de carinho isolado, sem resposta,
uma cumplicidade no vazio
de quem gosta e não gosta; só se deixa...
Fui amigo platônico, distante,
mesmo próximo, pleno de presença;
tive afetos restantes dos descuidos
ou de surtos da tua solidão...
Sob as perdas, os danos que sofri,
rabisquei as versões de realidade
que não vi, mas vivi de não viver...
Minha mente seguiu meu coração
sob o vão das imagens afetivas,
e teus nãos me nutriram de silêncios...
DONO DOS MEUS PÉS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sorrirei meus sorrisos; não esses da moda;
tenho sins, tenho nãos que ninguém me vendeu;
não entrei numa roda, uma gangue, uma tribo,
e só colho alegrias que vêm do meu chão...
Sigo minhas verdades, não tuas cartilhas,
vejo pelos meus olhos, não à luz dos teus,
há um "Deus" que não ouço nos discursos vãos
dessas milhas e milhas de palavras vagas...
Aprendi a trilhar um caminho escolhido,
quando a noite governa me deixo brilhar
sem excesso de luz; abuso de neon...
Céu e terra são palhas da minha cabana,
falharei meus acertos acertando as falhas
mais humanas e fundas do meu bem viver...
AFETO EM QUEDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se te assusta o carinho nos meus olhos,
meus desvelos te fazem recuar,
o luar do silêncio entre palavras
que aveludo em meus lábios te acautelam...
E também não entendes algum gesto
que dispõe um descuido, algum desleixo,
porque deixo aflorar a natureza
de quem pousa, confia e deixa estar...
Desconfias da minha confiança,
meu afeto sem armas, armadilhas,
minhas trilhas em busca de atenção...
Chego ao ponto final do bem querer,
me retiro em secretas retiradas
dos valores poupados na ilusão...
ENQUANTO POETA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem julgar que me sabe por meus textos,
meu estilo, a conduta literária,
minha mente operária da palavra
que abarrota cadernos; vão pro mundo...
Saberá quase nada sobre mim;
quando muito, que sou alguém sensível,
mas no fim da certeza de quem sou
nada mais achará que me anuncie...
Um poeta está muito e pouco é,
dura o tempo fugaz de cada verso
no qual sente o que sente pra compor...
Seu amor vira mágoa, mágoa riso,
sua meta se atinge pra não ser
e não ser se compõe no ser poeta...
