Eu ainda tenho Tempo pra Sonhar
Sente-se agora,
Sinta-se com vontade,
Sossegue e levante sem alarde,
Ainda não é tarde
Para aliar, para obter, para habitar.
Mesmo que nada tenhamos,
Ainda teremos nós.
Uma porção de insistência,
Cercada de resistência
Por todos os lados.
E o grito por socorro
Ainda habita a garrafa,
Tragada pelo oceano.
Mas hão de resgatá-la,
Antes que os mares sequem.
Ramona
Ainda que redondamente equivocados,
Todas as possibilidades de aproximação,
Resumem-se,
Aos escassos
E pouco prováveis,
Intervalos reduzidíssimos;
Nos quais ela submetia
Seus acurados, precisos juízos aos meus.
Já tão gastos
E de um tempo razoável para cá,
Bem pouco criativos e não menos rasos,
Que o que fora teoricamente proscrito.
Ao transmitir tuas reflexões e questionamentos
Tão próprios e particularmente pessoais,
Coisa nenhuma, Eu,
Reles pecador carnívoro e animalesco,
Poderia fazer,
A não ser sentir o roçar de tuas falanges nas minhas
E a preciosa e insuperável respiração vossa ao meu lado.
Agindo como força motriz,
Para nutrir meus vastos e proibidos surtos oníricos.
Aysha
Ainda em sonolência, sentei-me à mesa; emaranhadas mechas ou cachos (impossível determinar com exatidão a essa altura); pálpebras grudentas, rouquidão laríngea, voz mais grave que o habitual; obstruídas vias aéreas, maquilagem em borrões; com tornozelos congelados, contorcida sem edredom, próxima de não sentir os pés, dedos anestesiados; descascando esmalte. Mas o faro apurado, capturando aguçado toda e qualquer molécula de café, pairando sobre o ar resfriado pela estação que mais me agrada. Na cozinha, elevei minha caneca ao status de brinde e brindei, sozinha, ao arrojado inverno, que a primavera repouse agasalhada e confortável, pelo quanto puder, pois nem mesmo meteorologia, astronomia ou horóscopo, juntos, poderiam prever, ainda que nublado, quão fulgurante seria aquele dia.
Mas ainda somos selvagens,
apesar do severo condicionamento,
mesmo ainda que as rotinas perversas
insistentemente, nos adestrem.
[Ainda Somos o Fio da Navalha]
Nós ainda somos melhores,
do que todas as coisas ruins
que nos acontecem.
Ainda somos amáveis,
apesar das situações odiosas
que nos acometem.
Nós ainda somos indomáveis,
mesmo com todas as forças
que nos submetem.
Ainda somos furiosos,
embora mergulhados nas letargias
que nos abatem.
Mas ainda somos selvagens,
apesar do severo condicionamento,
mesmo ainda que as rotinas perversas
insistentemente, nos adestrem.
A menina ainda não entendia,
Que seu futuro lhe pertencia.
Mas já despejava naquele estágio,
Lágrimas de alegria.
Pequena Preciosa,
Sei de sua trajetória,
Pequena Preciosa,
Brilha vitoriosa.
