Enxerga mais longe a Gaivota que Voa mais Alto
"Quem planta é o homem mais quem dá a semente, faz brotar e poder colher os frutos é Deus."
—By Coelhinha
Quanto mais o homem estuda, mais simples se torna. Não porque saiba menos, mas porque começa a compreender a imensidão daquilo que ainda desconhece. O conhecimento verdadeiro não alimenta a arrogância; ensina humildade. Cada descoberta abre novas portas, e cada resposta revela perguntas que antes sequer imaginávamos existir.
O ignorante acredita que conhece o suficiente para julgar o mundo. O sábio, ao contrário, reconhece que a realidade é muito maior do que suas certezas. Por isso, não precisa impor sua verdade, diminuir quem pensa diferente ou transformar cada conversa em uma disputa de inteligência.
A sabedoria não faz o homem sentir-se maior do que os outros, mas perceber o quanto ainda tem a aprender. Porque, quanto mais a mente se expande, menos espaço sobra para a arrogância — e mais o conhecimento se curva diante da humildade.
Conhecer alguém exige mais do que ouvir suas histórias; exige observar o que essa pessoa faz quando seus interesses estão em jogo.
A autoestima mais sólida não nasce da certeza de ser superior, mas da tranquilidade de não precisar ser superior a ninguém.
Não confunda humildade com a obrigação de diminuir aquilo que você é para tornar os outros mais confortáveis.
Chega uma fase da vida em que preservar a paz se torna mais importante do que ampliar as possibilidades.
A verdade não se torna menos verdadeira porque nos incomoda, nem mais verdadeira porque nos consola.
A finalidade de uma instituição revela mais sobre sua verdadeira natureza do que o nome que ela recebeu.
E em terceira análise: As pessoas mais próximas são incapazes de te elogiar e enaltecer até que haja uma distância social super estimada.
A aparência de justiça é politicamente mais perigosa que a injustiça confessada, porque consegue pedir obediência em nome de uma virtude inexistente.
Quando ensinar já não basta
Há dias em que a escola pesa mais do que a mochila dos professores em semana de avaliações.
Não por causa das aulas. Nem das provas. Nem da burocracia, embora ela exista e cresça a cada ano. Pesa porque, em algum momento, ensinar deixou de ser apenas ensinar. Hoje, espera-se que o professor seja gestor de conflitos, mediador familiar, psicólogo improvisado, agente social, produtor de relatórios, alimentador de plataformas, responsável por índices, motivador permanente e, de alguma forma, o último elo de uma corrente que começou a se romper muito antes de sua chegada. Tudo retorna ao professor. Se o estudante aprende, cumpriu sua obrigação. Se não aprende, pergunta-se o que o professor fez, ou deixou de fazer. Essa lógica revela uma das maiores distorções da educação contemporânea: individualiza-se a responsabilidade por um problema que é estrutural.
Nesta semana, sentei-me diante de um estudante do sexto ano que não lê. Não escreve. Não domina habilidades que deveriam ter sido construídas nos primeiros anos da escolarização. É educado, prestativo, participa, tem vontade de agradar, mas a linguagem escrita ainda não lhe pertence. Foi nesse momento que a palavra "avaliação" perdeu o sentido. Como avaliar alguém que não consegue acessar aquilo que é condição para realizar a própria atividade? Que nota representa essa realidade?
A escola, então, oferece caminhos conhecidos. Recuperação. Nova oportunidade. Trabalho substitutivo. Mais prazo. Mais uma atividade. Mais uma tentativa. O RAV. Até que, quase sempre, chega-se ao mesmo destino: a aprovação. Não porque as dificuldades desapareceram, mas porque o sistema precisa continuar funcionando.
É uma engrenagem curiosa. Cobra-se do professor uma avaliação criteriosa, instrumentos diversificados, registros, evidências e lançamento de notas. Ao mesmo tempo, espera-se que os resultados finais não contrariem o fluxo esperado. A avaliação precisa existir, mas suas consequências nem sempre podem existir. Talvez seja por isso que tantos professores experimentem a sensação de correr sem sair do lugar.
O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu que vivemos tempos líquidos, marcados pela fragilidade dos vínculos e pela dificuldade de sustentar compromissos duradouros. A escola não ficou imune a essa condição. A responsabilidade pela aprendizagem tornou-se cada vez mais difusa. Quando tudo é responsabilidade de todos, frequentemente acaba não sendo responsabilidade de ninguém. E, no fim, sobra para quem está diante da turma.
Também me vem à memória Paulo Freire, quando afirmava que ensinar exige rigor metodológico e compromisso ético. Curiosamente, quase sempre lembramos apenas da palavra "amor". Esquecemos do rigor. Ensinar também exige reconhecer quando uma aprendizagem ainda não aconteceu. Fingir que aconteceu não é inclusão; é apenas adiar um problema que se tornará maior no ano seguinte.
Há algo profundamente injusto nisso. O estudante é privado de um direito fundamental: aprender. O professor é privado da possibilidade de avaliar com honestidade. A família, muitas vezes, acredita que a aprovação significa desenvolvimento. E a escola produz documentos que atestam competências que, na prática, ainda não existem.
Não escrevo estas linhas porque acredito que reprovar resolveria o problema. Não resolveria. Mas aprovar sem garantir a aprendizagem também nunca resolveu. Entre essas duas margens existe um vazio que temos insistido em chamar de política educacional.
Enquanto isso, seguimos preenchendo planilhas, lançando notas, organizando recuperações, respondendo questionários sobre estratégias, justificando ausências, explicando conflitos que nasceram em segundos e tentando provar, diariamente, que estamos fazendo o suficiente.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja por que tantos estudantes chegam ao sexto ano sem ler. A pergunta é outra: em que momento nos acostumamos com isso?
Talvez seja esse o maior retrato da crise educacional. Não a existência do problema, mas a naturalidade com que passamos a conviver com ele.
Há dias em que a escola não cansa apenas pelo excesso de trabalho. Ela cansa porque obriga bons profissionais a escolher, diariamente, entre registrar a realidade ou alimentar a ficção de que ela já foi transformada.
E essa talvez seja uma das violências mais silenciosas da educação brasileira.
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