É o Tempo da Travessia
O Tempo é uma lâmina longa bem fina na ponta e bem larga no fim.
Ela nos atravessa segundo a segundo até o último instante, onde conheceremos não o final, mas o início de tudo, e como prêmio a Mão de Quem a possui.
Por todo este tempo, eu vivi... respirei, caminhei, cumpri os dias como quem atravessa paisagens sem se deter nelas. Estive presente, mas não inteiro. Fiz o que se esperava, sorri quando era preciso, calei o que gritava por dentro. E, ainda assim, algo sempre faltava.
Agora entendo: eu vivi, sim… mas nunca tive uma vida que fosse verdadeiramente minha. Nunca abracei meus próprios desejos sem medo. Nunca me permiti ser, apenas ser, sem me moldar ao olhar dos outros.
Talvez, só agora, ao reconhecer essa ausência, eu comece a construir o que é meu... um caminho onde viver não seja apenas existir, mas pertencer a mim mesmo. E nisso, finalmente, pode nascer uma vida.
Antigamente acordava a manhã, agora é a manhã que me acorda. Esta travessia no tempo ensinou-me a envelhecer as noites e jovializar os dias.
Nem tudo o tempo reduz a pó. Sempre há um curinga no baralho, que atravessa os séculos fazendo seus malabarismos sem perder um dente de leite sequer.
