Dizer Adeus com Vontade de Ficar

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A amizade mais perfeita e mais durável é somente aquela que contraímos com o nosso interesse.

Quem nasceu para obedecer, obedecerá mesmo no trono.

Uma das bases da prudência é não fazer por mal o que se pode fazer por bem.

O silêncio é o melhor rebuço para quem não se quer revelar, ou fazer-se conhecer.

Se o poeta fosse casto nos seus costumes, os seus versos também o seriam. A pena é a língua da alma: como forem os conceitos que nela se conceberem, assim serão os seus escritos.

Não existe conversa mais tediosa do que aquela onde todos concordam.

Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem.

Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se da sua brevidade.

Esqueço sempre, mas o corpo lembra:
em breve
será dezembro.

Não invejemos os que sobem muito acima de nós: a sua queda será muito mais dolorosa do que a nossa.

As lágrimas dos velhos são tão terríveis como as das crianças são naturais.

Todos os dias vão em direção à morte, o último chega a ela.

O sentimento que o homem suporta com mais dificuldade é a piedade, principalmente quando a merece. O ódio é um tónico, faz viver, inspira vingança; mas a piedade mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.

A dificuldade atrai o homem de caráter, porque é abraçando-a que ele se realiza.

O símbolo dos ingratos não é a Serpente, é o Homem.

O jornal exerce todas as funções do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o pai da mentira, mas o pai da discórdia.

O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.

A verdadeira inteligência consiste em dar valor à dos outros.

Chanson

Disse a meu peito, a meu pobre peito:
- Não te contentas com um só amante?
Pois tu não vês que este mudar constante
Gasta em desejos o prazer do amor?

Ele respondeu: - Não! não me contento;
Não me contento com um só amante.
Pois tu não vês que este mudar constante
Empresta aos gozos um melhor sabor?

Disse a meu peito, a meu pobre peito:
- Não te contentas desta dor errante?
Pois tu não vês que este mudar constante
A cada passo só nos traz a dor?

Ele respondeu: - Não! não me contento,
Não me contento desta dor errante...
Pois tu não vês que este mudar constante
Empresta às mágoas um melhor sabor?

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
ANDRADE, E., Antologia Breve, 1972