Depois

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O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois de desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme, sob os nossos pés. Não temos sequer areia sob os nossos pés. Nós somos areia!

Depois de um certo tempo cada um é responsável pela cara que tem.

Clarice Lispector
Água viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.

Como chegar para alguém e dizer de repente eu te amo para depois explicar que esse amor independia de qualquer solicitação (...)?

Depois que eu vi ele tocando guitarra e a Janis cantando, era muito parecida a distorção da guitarra dele com a distorção da voz da Janis, era uma coisa super diferente da época, e isso me deu uma ideia de liberdade, de raio, de libertação, depois que ouvi ele tocar e ela cantar eu também achei que eu podia tudo, que eu podia ser um raio de energia, que eu podia ir contra tudo, que eu podia ser uma pessoa do jeito que eu sonhava.

Eu quero depois, quando viver de novo, a ressurreição e a vida escamoteando o tempo dividido, eu quero o tempo inteiro.

Depois de anos tentando compreender a natureza humana com o objetivo de resolver as suas questões de sofrimento, percebi que a maioria da morbidez humana vem do aprendizado que as religiões divulgam. Sei muito bem que as religiões gostam que acreditemos que ela é necessária, pois nos inspira ao bem social. Mas isto é uma grande mentira, pois seus efeitos na formação da personalidade humana é devastadora.

Porque nós só questionamos depois
Que as coisa acontecem.

Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

HORÁRIO DE TRABALHO

Depois da treze poderei sofrer:
antes, não.
Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
tenho as obrigações, à hora-certa.

Depois irei almoçar vagamente
para sobreviver,
para aguentar o sofrimento.

Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
disporei o material da dor
com a ordem necessária

para prestar atenção a cada elemento:
acomodarei no coração meus antigos punhais,
distribuirei minhas cotas de lágrimas.

Terminado esse compromisso,
voltarei ao trabalho habitual.

Porque só percebemos que escolhemos errado
Depois que nosso representante esta no poder.

E os dois comemoraram juntos e brigaram juntos muitas vezes depois. E todo mundo diz que ele completa ela, e vice-versa que nem feijão com arroz.

Assim como a necessidade reúne os homens espontaneamente, o tédio faz o mesmo depois que ela é removida.

Há quem prefira os agaves
e despreze as margaridas,
e depois ainda reclamam
porque ao invés de flores
só recebem espinhos...

Hoje quero escrever qualquer coisa tão iluminada e otimista que, logo depois de ler, você sinta como uma descarga de adrenalina por todo o corpo, uma urgência inadiável de ser feliz. Ser feliz agora, já, imediatamente. E saia correndo para... dar aquele telefonema, marcar um encontro, armar um jantar, quem sabe um beijo; para comprar aquela passagem de avião, embarcar hoje mesmo para Nova York, Paris, Hononulu. Tão revigorado e seguro – depois de me ler – que nada, absolutamente nada, dará errado: ela (ou ele) atenderá com prazer (em todos os sentidos) ao seu chamado, haverá saldo no banco para a passagem e muitos dólares. Tudo se organizará rápida e meio magicamente, como se todos os astros e todos os deuses só esperassem por um momento seu para derramar sobre sua cabeça, digamos, uma cornucópia de bem-aventuranças.

Continuarei caminhando, fazendo de cada instante uma história que poderá ser contada e depois de tudo ser aplaudida por aqueles que a assistiram.

E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva.

O aplauso à grande explosão só chegou 14 bilhões de anos depois dela ocorrer.

Você me fez a pessoa mais feliz do mundo e depois sumiu. Por que?

Todos querem ser locomotiva, mas depois ficam reclamando por ter de puxar os vagões.

Experimentamos ficar calados – mas tornávamos inquietos logo depois de nos separarmos.

Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.

Nota: Trecho do conto Uma amizade sincera.

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