Depoimento para Mim Mesmo

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O sofrimento me atravessou como uma lâmina, mas não encontrou em mim um lugar definitivo para morar.

O silêncio que hoje habita em mim já foi um grito desesperado que ninguém quis ouvir.

Há um silêncio dentro de mim que não é ausência, mas excesso de tudo que nunca pôde ser dito.

Eu permaneci não porque havia esperança, mas porque algo em mim se recusou a obedecer ao fim.

A vida não me moldou com cuidado, ela me atravessou até que eu descobrisse o que em mim era inquebrável.

Existe uma parte de mim que nunca será leve e foi ela que me manteve vivo.

Existe uma força em mim que não é bonita, é necessária.

Eu não fui salvo, fui atravessado pela ruína até que algo em mim deixasse de ceder, não intacto, não ileso… mas irrepetível na queda e, por isso, cada vez mais difícil de ser destruído.

Há um abismo dentro de mim que não me engole mais, apenas me acompanha.

Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.

Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.

Há palavras que nunca saíram de mim. Não por falta de desejo, mas porque pressenti que o mundo não saberia recebê-las. Então elas ficaram aqui, acumulando peso e silêncio. E o que não se diz, com o tempo, também fere.

Há noites em que sinto a alma caminhar por corredores invisíveis dentro de mim, como se Deus permitisse que certas dores permanecessem apenas para que eu jamais esquecesse a profundidade daquilo que sobrevivi.

Há em mim uma melancolia antiga, quase litúrgica, como se minha alma carregasse memórias de tempestades que minha própria consciência já não consegue nomear.

Carrego dentro de mim um excesso de permanências. Pessoas, dores e memórias que partiram do mundo, mas continuam habitando meus pensamentos como catedrais abandonadas.

Existe uma parte de mim que ainda conversa em silêncio com tudo aquilo que perdi.

Há em mim um homem que sofre em silêncio, observa com profundidade, recorda com saudade e reza com esperança. Talvez seja por isso que minhas palavras nasçam das cicatrizes: porque algumas dores só encontram descanso quando se tornam literatura.


- Tiago Scheimann

O que me fere não é apenas perder, mas descobrir que parte de mim já havia se despedido antes de eu perceber.

A solidão é a sala onde o mundo tira a máscara e me obriga a descobrir se existe alguém em mim além da voz que os outros ouviram.

... algo
dentro de mim sempre sabe
aonde meus passos me têm levado -
sobre questões que o destino me
reserva - embora ainda pouco
inclinado a me
contar!