Dedicatória para Mim

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Eu sei que a pressa me empurra pro fim, e só de pensar já pesa pra mim,
por isso eu beijo devagar, amo forte, sem medo, porque viver correndo é partir mais cedo...

Me disse que acabou, mas algo em mim não entendeu por que o amor era tanto e se perdeu. Fiquei com ausência no peito e um adeus que não aconteceu.

Às vezes eu olho para a beira da minha cama e imagino que ali está sentada olhando para mim a figura da morte.
Durante o dia ela me acompanha em tudo que eu faço como uma sombra.
Eu entro na piscina e a água gelada e o céu azul acima de mim me lembram como é bom estar viva, mas lá no horizonte onde o sol lentamente se deita eu vejo a figura dela... Sorrindo sem pressa de me buscar.
Tento manter a minha consciência o mais desperta possível. Não quero ser surpreendida pela morte, pelo contrário, quando ela chegar eu estarei pronta, vestida e limpa de corpo e alma, sem medo nenhum, porque eu trabalhei o meu eu e a minha consciência para me unir ao Todo.
Deixar esse mundo não significará uma coisa dolorosa para mim. Será a oportunidade de rever todos os meus gatos e isso é o que me conforta e alegra.

Eros vive em mim.

Minha face enrugada, marca as batalhas por mim lutadas, nessa minha vida!

O tempo é um paradoxo quântico, para mim, não faz sentido, pois nossa existência é moldada por instantes que já se foram e por futuros que ainda não nasceram. Vivemos no fio tênue do agora, mas carregamos em nós as marcas de tudo que foi e a ansiedade de tudo que poderá vir. O presente é apenas um fragmento entre duas eternidades invisíveis.

Aos poucos vou me reconstituindo, tentando colar os pedaços de mim que a vida esfarelou, mas sei, com uma dor que queima por dentro, que nunca serei inteiro. Sempre restarão fendas abertas, buracos que sangram lembranças e ausências que me rasgam por dentro.

Eu escrevo na esperança de que um dia alguém leia e compreenda esses cacos de mim, sem esse entendimento, as noites de insônia, as crises da minha depressão correm o risco de não ter deixado rastros que valham a pena.

Fui forjado no colapso, moldado pela queda que destruiu tudo em mim. O aprendizado foi a única trilha que restou, e nada além importava. Hoje, ao olhar para trás, choro, não pela queda em si, mas por nunca ter acreditado que eu poderia me erguer.

Corvos voam sobre mim, refletindo em suas penas os labirintos da minha própria mente. Observam meu cansaço, aguardando o momento em que me dissolverei em minhas próprias sombras.

A maior das guerras acontece dentro de mim, e é lá que me torno invencível.

Fui quebrado, mas cada caco refletiu uma nova parte de mim.

Quando perdi tudo, encontrei a mim mesmo.

O medo me testou, mas a fé respondeu por mim.

Eu morri em mim várias vezes até nascer em Deus.

Depois da cachoeira, tudo mudou em mim, ainda que eu nunca tenha decidido mudar.

A solidão me ensinou a ser companhia pra mim mesmo.

Deus me fez entender que, o milagre não está fora, está em mim.

Quando o coração cansou, a fé respirou por mim.

Deus me achou onde eu já tinha desistido de mim. Deus me encontrou no ponto mais frágil e ali plantar-se foi milagre e novo um começo.