Coleção pessoal de yuriemanuel

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O Estado Inanimado.

Acontece às vezes num dia calmo e qualquer, daqueles que você não quer amanhecer. Um senso de possibilidade, a calmaria antes da tempestade, o último voo do Concord. Bico pra cima pra decolar.
E você decora, com um suspiro de timbre, tom e cor, um primeiro momento de uma manhã de eras estagnadas no tempo. Acha que são onze, já passa das duas, e a tarde, caleidoscópica, mistura nostalgias em lembranças furta cor. Que o tempo tem um jeito engraçado de nos surpreender: ele some. Depois volta, faz chover. Choca com seus saltos.
E nesses dias que lhe dizem pra ficar na cama, e com a razão de quem sabe o que vem por aí, acontecem encontros inesperados porque você teve a gana de tentar vencer a batalha das vinte e quatro horas. De pé, enquanto se desvencilha de certos abraços, tenta dizer que não pode, que não deve, mas a qualquer resistência ao irresistível é vã como um aceno na despedida. Não funciona. Daí a poderosa senhora das possibilidades agita seu leque e anuncia temores, anseios, prazeres e discórdia. Que pra cada beijo proibido, pinga em alguém uma gota de sangue. Um suor frio de sacanagem enquanto a parca afia sua tesoura.
E sabe, ainda não tenho vontade de ligar o celular. Não porque imagino que alguém ligue, mas é pra tentar ter certeza que você não vai ligar. Estranhamente, parado olhando o teto depois de horas, só desejo que você se lembre da palavra escrita no seu antebraço. Aquela, do taxi a cem por hora, aquela mesma que define o resumo do leque do futuro: “don’t”. Porque é não e pronto, dito assim, sem provocação. Nunca mais provocação, nunca mais pagar pra ver. só pairar em minhas próprias porcarias, inalcançável.
Que pra um escritor — seja o que for: jornalista, arquiteto, na mais grave instância, professor — de silêncios, escrever palavras que nada digam é um crime digno de prisão perpétua; ato inafiançável. Então me resta dizer que não quero que nada seja assim, cheio de paredes invisíveis e amplas, que agridem o toque, que separam e que dispersam. Além do senso de possibilidade, arde em mim o sensitivo e milenar desejo de liberdade. Então eu quero só que seja assim: nada.
Porque se o tempo voltasse, eu poderia dar adeus antes, eu poderia antecipar e simplesmente não fazer. Mais ainda assim amanheceria o meu dia, levantaria da cama e reagiria com vontade. Só que eu não tenho mais vontade, e isso é o melhor do tempo não voltar — não corro mais esse risco, menos uma possibilidade. Daí aceno, inútil, pra senhora dona do leque e nem me despeço. Só a olho de longe, passado, renovado…
Parado.