Coleção pessoal de TiagoScheimann
Sou confidente da madrugada, ela é a única que aceita minhas versões sem filtros, meus colapsos e minhas confissões inconfessáveis.
Exibo cicatrizes invisíveis que alteram minha postura, pesam nas minhas escolhas e ditam o ritmo da minha caminhada.
A escrita não é para o mundo, é para mim. Se eu não colocar no papel, o que sinto acaba por me implodir.
Administro um cemitério interno de sonhos anônimos, alguns têm lápides de luxo, outros foram enterrados vivos no esquecimento.
A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.
Meu maior pavor não é a morte biológica, mas a morte sensorial: tornar-me um autômato que executa rotinas sem habitar a própria alma.
Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".
Meu maior receio é a domesticação da dor, o dia em que eu parar de estranhá-la e passar a chamá-la de rotina.
O raso me causa vertigem. Tudo em mim é abissal: se amo, me perco, se sofro, me afogo, se escrevo, transbordo.
Sou um mosaico de tentativas imperfeitas. Nenhuma foi o bastante, mas todas foram entregues com a honestidade de quem tentou.
Treinei meu coração para bater em surdina, quanto menos ele chama a atenção, menor é o alvo para novas decepções.
O pessimismo é apenas o realismo de quem já foi ferido demais pela expectativa e hoje prefere a segurança da observação.
Nasci com um cansaço atávico, como se minha alma carregasse o peso de séculos e a esperança estivesse permanentemente em débito.
Memórias são invasoras, quebram as janelas do presente sem pedir licença e deixam o chão estilhaçado antes de partirem.
Não confunda minha resistência com força. A força busca a vitória, a resistência só quer sobreviver a mais uma noite.
Performance de normalidade: dou bom dia, sorrio no tempo certo e respondo com polidez, enquanto por dentro, tudo desaba em silêncio.
Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.
Sou o único sobrevivente das minhas próprias emboscadas mentais, e o cansaço dessa vigília é o que me define.
Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.
Escrevo porque a fala me trai. No papel, as palavras não tropeçam, elas me organizam, me protegem e me mantêm lúcido.
