Coleção pessoal de TiagoScheimann

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A perda me ensinou a medir tudo em silêncio. O pouco que sobrou passou a ter peso de tesouro. Conto moedas de afeto e invisto em gestos pequenos. Há economia no cuidado com o próprio quebrado. E essa prudência constrói a base para novos começos.

Há dias que parecem rascunhos mal colados. As frases saem tortas e os gestos, imprecisos. Reviro-os até que encontrem forma e razão. Algumas colagens funcionam, outras viram poesia de esquina. E a vida segue, improvisando imagens que valem.

Amar é, por vezes, aceitar o outro como inverno. Sabemos que virá friagem, talvez geada, talvez neve. Mas também há a claridade cortante dos dias limpos. Aceitar é vestir-se de fibra para enfrentar o frio. E ainda assim, entregar-se ao calor raro é risco necessário.

Há um lugar onde guardo meus silêncios mais puros. É como um armário de madeira que não range. Quando tenho medo, entro ali e fecho a porta. O barulho do mundo fica distante como um inverno. E eu, reclinado, ouço uma paz que não pede provas.

A esperança não é sempre grande, às vezes é só um suspiro. Um suspiro que segura o corpo em pé. Quando tudo parece ruir, esse sopro faz ponte. Construo com ele um caminho minúsculo, porém firme. E sigo, sabendo que minúsculo pode ser vasto.

Minha voz, às vezes, é um barco que não encontra cais. Bate nas pedras do entendimento e volta vazia. Se pudesse, mudaria de mar e deixaria a costa para trás. Mas aprendi que certas correntes só ensinam a nadar melhor. E então permaneço, remando com paciência terna.

A cidade tem lembranças afiadas como cacos de vidro. Passo descalço por algumas ruas e sinto as marcas. Cada cicatriz urbana me conta quem já soube amar. Há um consolo no reconhecimento das próprias falhas. E, por isso, volto ao lugar que me fez aprender.

Há cartas que nunca enviei porque não queria ferir. Elas ficaram como pétalas secas no balcão. De vez em quando revisito o antigo tecido das palavras. Algumas nunca deviam ter nascido, outras curam. E escrever sem enviar é um jeito de entender o próprio nó.

Quando penso em coragem, lembro de pequenas decisões. Elas não soam heroicas, mas movem montanhas internas. Trocar o olhar, dizer o nome, abrir uma porta. São gestos pobres, mas imprescindíveis. E a soma deles nos reconstrói, dia após dia.

Há músicas que voltam em espasmos, sem avisar. Elas me pegam pelo braço e me obrigam a sentir. Dançar sozinho em silêncio é uma prática sagrada. A melodia ajusta o passo da alma. E, ao final, a sala inteira cabe dentro do peito.

Tenho medo de festas cheias de risos que
não escuto. Elas me lembram de vozes que falavam por mim. Aprendi a rir em casa, quando ninguém olha. O riso tem um gosto de sobrevivência. E, por isso, o guardo como se fosse documento.

O vento traz nomes que o mundo esqueceu. Eles pousam na janela e demoram a sair. Eu os recolho como se fossem folhas importantes. Coloco-os no bolso e sigo caminho mais leve. Carregar nomes é forma de resistir ao esquecimento.

Os sonhos que guardei cabem numa caixa de fósforos. A cada vez que a abro, a chama revela detalhes. Às vezes acendo e vejo um quadro de infância. Outras, o fogo apaga e sobra apenas fumaça cor de saudade. Continuo acendendo porque a cena vale o risco.

A tristeza tem territórios que eu ainda não visitei. Vou a pé, com uma lanterna de medo e coragem. Algumas ruas são estranhas e pedem licença para entrar. Outras me reconhecem e me oferecem cadeiras antigas. Sento-me e descubro que conversar com a dor é arte.

Às vezes me parece que nasci com um relógio adiantado. Eu corro para alcançar momentos
que já se foram. O que me resta é aprender a
dançar com o tempo errado. Há ritmo mesmo
na descompassada respiração. E a dança, por
mais torta, me mantém em pé.

Há palavras que se escondem no bolso justo da memória. Aparecem só quando o corpo precisa de consolo. Algumas são duras, outras acariciam a garganta. Se pudesse, as colocaria em moldura e as olharia todas as manhãs. Seria um museu íntimo de pequenas verdades.

Um menino de costas carrega nas mãos vazias
tudo o que não pôde salvar. O piano calado chora por dentro, o violão perdeu as cordas como quem perdeu a fé. Anjos sujos ajoelham na lama, pedindo perdão por não terem chegado a tempo. As máquinas, cansadas de pensar, aprenderam o silêncio. E mesmo assim, ao longe, a água insiste em cair, porque o mundo acaba muitas vezes, mas a vida sempre encontra um jeito de continuar descendo.

Ele ficou, quando o mundo desabou em telas mortas e a música aprendeu a sangrar. Com a roupa rasgada pela história, olha anjos quebrados que esqueceram o céu, e corvos que sabem o nome do fim. Há almas passando por ele como neblina que não pede licença, e uma cachoeira distante tentando lembrar que ainda existe queda, e ainda existe som.

O silêncio da manhã tem gosto de promessa adiada. Bebo o café e conto os minutos que ainda podem mudar. Há um desejo subterrâneo que insiste em florir. Mas a rotina é jardineira rígida, poda tudo com mãos frias. Mesmo assim, algo nasce, teimoso, entre as pedras.

A esperança, às vezes, é um fósforo mal aceso. Basta um sopro e ela some, mas volta a arder. Eu coleciono fósforos na caixa do costume. Quando a noite aperta, acendo como quem pede socorro. E a chama pequena faz todo o caminho parecer possível outra vez.