Coleção pessoal de suzana_travassos_valdez
Voltei-me assustada. Ninguém! Apenas o encarvoado das fachadas e o azul invisível do céu a cair sobre mim.
Talvez o sol não dourasse as lembranças, como ali, naquele momento no interstício de tempos, entre a noite e a madrugada.
O que éramos nós, sem o assombro, o espanto, a sensibilidade? Conchas do Mar Morto? Perfeitas por fora, mas sem trazer o som do mar encostado ao ouvido, apenas o sussurro seco do próprio deserto.
O que eu temia era a nitidez com que percebia cada tremor de alma, o que me apavorava era, que a consciência, lúcida em demasia, como lâmina, me pudesse rasgar o pensamento.
Sabia que a esperança era capaz de ser o mais cruel dos enganos e, ainda assim, o único abrigo possível.
